Os estudos que demonstraram que a sexualidade é uma construção histórica, foram fundamentais para demonstrar que as condutas sexuais não são naturais, nem simplesmente fruto das manifestações biológicas, que são na verdade, resultantes de manifestações culturais, políticas e econômicas.
No caso do Brasil, que faz parte do que chamamos de cultura ocidental cristã, os principais estruturadores do modelo sexual dominante são a religião católica, a cultura européia, o desenvolvimento do capitalismo e todas as mudanças ocorridas a partir dele.
A visão religiosa, identificando a mulher como subproduto do homem e aliada a essa, a visão biológica, definindo a mulher como inferior ao homem do ponto de vista da força física e das diferenças sexuais, tentando justificar cientificamente a inferioridade intelectual feminina pela fisiologia do seu corpo;
A visão cultural, definindo características e hábitos, costumes e valores próprios das mulheres e dos homens, característicos do modelo sexual patriarcal introduzido em nosso país desde a sua colonização e até hoje persistente em nossa sociedade. A construção dos valores desse modelo ocorre desde a infância, a partir do que está socialmente estabelecido como papel de homem e de mulher. Nesse processo, as crianças aprendem o “mundo” e constroem sua identidade sexual e de gênero. Ser macho ou fêmea é um dado biológico, mas ser homem ou mulher implica ser masculino ou feminino.Os gêneros aparecem como opostos e complementares, porém hierárquicos, o homem dominador e a mulher dominada.
Ser mulher e, portanto, feminina significa ser dona-de-casa passiva, maternal, afetiva e detalhista; ser homem significa ser forte, profissional, agressivo, racional e objetivo. Isso está tão enraizado na cultura e tão introjetado por cada pessoa que aparece como parte da “natureza humana”. Tornando qualquer comportamento sexual diferente desse padrão uma anormalidade. Se seguem esse padrão de submissão dos seus desejos, da não expressão da sua sexualidade e vontade, se servem ao papel de mães abnegadas, voltando todos seu esforço para o bem-estar da família são consideradas virtuosas. Se não atendem a esse padrão, se apresentam “características inerentes aos homens”, ou expressam suas vontades e desejos sexuais são classificadas como profanas. Os homens, dentro desse modelo, em geral vivenciam um grande medo da impotência e, como estão em uma posição de poder a zelar, estão mais propensos e viverem sua sexualidade de acordo com as atribuições do gênero masculino. Se romperem essa norma dominante, se expressarem seus desejos de forma diferentes são estigmatizados e rotulados como “pouco machos”.
Com desenvolvimento do capitalismo, esse modelo patriarcal vem sofrendo modificações, principalmente nas últimas décadas.A chamada segunda onda do feminismo surgida nos anos 60 atuou num ambiente de forte contestação ao sistema capitalista e aos valores tradicionais propiciando a abertura para novas formas de organização. O feminismo mostrou que o pessoal também é político, questionando assim um dos pilares fundamentais da opressão das mulheres no capitalismo, que é a separação da vida entre uma esfera pública e uma esfera privada (família).O feminismo colocou a importância de separar maternidade de sexualidade e defendeu o direito das mulheres de expressar seu desejo sexual.Construiu formas coletivas de expressão das mulheres e para afirmação de seu desejo sexual. Colocou a questão da autonomia e do seu poder de decidir e escolher.Questionou a opressão, a imposição e o castigo.
São inegáveis a importância e contribuição desses movimentos para a libertação sexual das mulheres e construção de novos valores sexuais. Mas também devemos ter clareza de que se por um lado, avançamos denunciando um modelo sexual opressor, discriminatório e desigual, conseguindo várias conquistas, por outro, algumas das lutas defendidas pelo movimento feminista, como acesso ao trabalho foram possíveis de serem alcançadas, não somente pela luta social que esses movimentos feministas vieram desempenhando ao longo desses anos, mas também e principalmente porque, naquele momento o sistema capitalista estava em crescimento e necessitava de mais mão-de-obra além da proporcionada pelos homens, e com custos mais reduzidos que os salários pagos para os homens. Proporcionando as mulheres o acesso ao trabalho, mas em condições ainda de inferioridade, além de proporcionar a essas o surgimento de uma “dupla jornada de trabalho”, o emprego externo e a continuidade do trabalho de casa, historicamente realizado por elas.
Outra situação que nos deparamos atualmente, com o avanço do capitalismo e seus reflexos nas relações de gênero é o desenvolvimento de relações sexuais baseadas no consumo e mercantilização. Por estarmos vivendo em um momento do desenvolvimento do capitalismo em que as relações humanas se dão através do consumo, compra e venda de mercadorias, em que as pessoas são valorizadas pelo que tem e pelo que consomem, acabamos transpondo essa idéia para as relações de gênero também. Observamos, principalmente nas gerações mais jovens, a formação de relações alicerçadas na idéia do consumo do outro, da ampliação das relações por prazer, por quantidade, da preocupação excessiva com a aparência corporal, da necessidade da beleza física para realização dos seus desejos e dos desejos do outro(a) segundo um padrão de beleza, propagandeado principalmente pelos meios de comunicação de massa , haja vista a grande ampliação do número de academias e do aumento exorbitante no número de cirurgias plásticas realizadas nos últimos anos.
Essa mercantilização transmite a falta idéia de que vivemos em uma situação de igualdade entre gêneros. Que ao mesmo tempo em que reduzem a distância entre a virtuosidade e a profanação das mulheres outrora tão evidentes nas relações patriarcais de gênero, propiciam o aparecimento de outras práticas, ainda baseadas na exploração e discriminação sexual. Se por um lado as mulheres puderam experimentar uma maior autonomia para o exercício da sexualidade, através das mudanças políticas e econômicas, como acesso ao trabalho, a educação, aos métodos anticoncepcionais, de outro surgiram novos perigos com a redução da distância entre virtuosidade-profanação, aumentando também a sua vulnerabilidade, crescendo o desrespeito, a violência e a agressividade sobre elas.
É necessário que entendamos que esses valores atualmente propagandeados e reproduzidos nas relações de gênero fazem parte da construção da ideologia dominante, com velhos traços do modelo patriarcal e com novos valores construídos a partir da necessidade do capitalismo, na consciência de ambos os sexos. Ou seja, gênero feminino e gênero masculino são responsáveis igualmente pela manutenção e reprodução desses valores. Devendo-se, portanto partir de ambos os gêneros, a necessidade, numa perspectiva de discussão classista, contra a ideologia dominante, a desconstrução desses valores consumistas, individualistas, discriminatórios e exploratórios, e a construção de novos valores, calcados na igualdade, respeito, e companheirismo entre sexos, sabendo o que nos diferencia e o que nos iguala, enquanto gênero feminino e gênero masculino, promovendo dessa forma um salto qualitativo na construção de verdadeiras relações de gênero livres de preconceitos, tabus, medos, exploração e discriminação sexual.
Bibliografia:
FARIA, Nalu (Org). Sexualidade e Gênero: uma abordagem feminista. São Paulo: SOF,1998.
Texto: Gênero e Classe; Sandra Marli da Rocha Rodrigues. MMC/PR.
Reflexões a respeito de Gênero e Sexualidade na FEAB
O surgimento da bandeira “Gênero e Sexualidade” entre as demais bandeiras de luta da FEAB reflete um amadurecimento político interessante entre os militantes e o Movimento Estudantil da Agronomia. Durante o primeiro ano de sua existência, já experimentamos alguns debates qualificados nos fóruns da FEAB, a discussão, diferentemente de outros setores, na FEAB surge com uma proposta de avanço à discussão (e prática!) sobre as relações de Gênero e Sexualidade, e tem um diferencial, o de não surgir a partir de uma demanda exclusivamente feminina, pelo contrário, ser suscitado e construído por homens e mulheres dentro da Federação.
Nós, mulheres da FEAB também entendemos a Plenária de Mulheres, que acontecerá durante o 49o CONEA (em Cuiabá), como um avanço para a Federação, visto que a Plenária não surge e nem é construída com um objetivo de sectarização do ME da Agronomia, pelo contrário, surge com o objetivo de levantar e aprofundar elementos (a partir da ótica feminina) que possam ser integrados ao debate amplo, entre companheiros e companheiras que se propõem a construir uma nova sociedade, calcada em novos valores.
Não nos pretendemos como um Movimento Femista, mas Feminista, que lute pelo reconhecimento dos direitos das mulheres e valorização do nosso papel, que de forma alguma deve ser construído com base na utilização de argumentos e práticas divisionistas e compensatórias. Divisionistas em relação ao debate, como avançar na discussão sem que os companheiros possam ter a possibilidade de participar e construir conosco as relações de gênero no Movimento Estudantil. Compensatórias no que diz respeito aos ganhos que podem surgir a partir deste debate. Devemos lutar por novas práticas, baseadas em novos valores, buscando a igualdade de direitos e reconhecimento de papéis e potenciais, e não simplesmente compensar a contribuição das mulheres ao ME com “cotas” em espaços, mesas e coordenações. O que devemos sim é lutar e priorizar pela formação de companheiras que tenham um debate qualificado, permitir que as mesmas tenham a possibilidade de contribuir em suas escolas e na FEAB e ME como um todo.
Partindo de uma análise histórica breve do Movimento Estudantil e as mulheres na FEAB percebemos dentro de nossas escolas o papel relevante das mulheres na construção do ME dentro de suas escolas. Mais uma vez, não se busca aqui uma simples quantificação da presença feminina na militância, mas sim levantar aspectos qualitativos desta presença. Construímos, ao longo dos anos, líderes estudantis por diversas escolas do Brasil. Depois da gestão de Pelotas, 2001/2002, onde não houve presença feminina na coordenação nacional, tivemos a Gestão de Curitiba, 2002/2003 com três mulheres, Vitória da Conquista, 2003/2004 com duas mulheres, mesmo ano em que a Coordenação Regional II (PR e SC), de Florianópolis é dirigida em sua maioria quase absoluta por mulheres. No ano de 2004, na escola de Curitiba, também se elege a primeira Coordenadora Geral do CAALV (UFPR) militante da FEAB, segunda da historia deste CA, depois de mais de quatro décadas de hegemonia masculina neste cargo. As coordenações nacionais de 2004/2005 e 2005/2006 (Santa Maria e Lavras respectivamente) trazem em sua composição uma companheira cada, não menos qualificadas e importantes para o processo de construção histórica da FEAB. Vale ressaltar também que no ano de 2005, pela primeira vez na história das Coordenações (da FEAB) na CONCLAEA (1998/1999 Geral; 2001/2002 Geral; 2005/2006 Sul) uma mulher contribui para a construção da Confederação. Esses exemplos são apenas alguns poucos dos que podemos resgatar na historia do Movimento Estudantil da Agronomia de contribuição de nossas mulheres militantes. Isso, sem levar em consideração as inúmeras companheiras que constroem em suas escolas e núcleos de base nossa política.
É peculiar ainda, que essa discussão e ascensão da discussão em torno das relações de gênero surja desta maneira dentro do movimento estudantil de um curso historicamente hegemonizado por homens e, da mesma maneira, historicamente machista e preconceituoso.
A propósito, a discussão a respeito de machismo e preconceito deve ser avaliada e discutida não apenas pelos homens, senão pelas mulheres, que devem ter a percepção de até que ponto contribuem com esta situação de submissão e discriminação. Sim, nós mulheres também temos nossa parcela de culpa nesta situação e faz parte de nosso compromisso construir novas formas de relacionamento entre nós e nossos companheiros.
A FEAB tem grandes chances de contribuir com o Movimento Estudantil a partir de uma ótica diferencial e qualificada a respeito das relações de gênero e de sexualidade, desde que se mantenha no caminho que vem seguindo, construindo o debate fraterno, juntando companheiros e companheiras, superando tabus, chavões e práticas machistas, desvios femistas e valores medíocres da sociedade burguesa.
Pelo Socialismo, a construção de novos valores é fundamental!
Contribuição do Núcleo de Trabalho Permanente de Juventude Cultura e Valores - NTP FEAB
UFPR - Curitiba - PR (2007)
No caso do Brasil, que faz parte do que chamamos de cultura ocidental cristã, os principais estruturadores do modelo sexual dominante são a religião católica, a cultura européia, o desenvolvimento do capitalismo e todas as mudanças ocorridas a partir dele.
A visão religiosa, identificando a mulher como subproduto do homem e aliada a essa, a visão biológica, definindo a mulher como inferior ao homem do ponto de vista da força física e das diferenças sexuais, tentando justificar cientificamente a inferioridade intelectual feminina pela fisiologia do seu corpo;
A visão cultural, definindo características e hábitos, costumes e valores próprios das mulheres e dos homens, característicos do modelo sexual patriarcal introduzido em nosso país desde a sua colonização e até hoje persistente em nossa sociedade. A construção dos valores desse modelo ocorre desde a infância, a partir do que está socialmente estabelecido como papel de homem e de mulher. Nesse processo, as crianças aprendem o “mundo” e constroem sua identidade sexual e de gênero. Ser macho ou fêmea é um dado biológico, mas ser homem ou mulher implica ser masculino ou feminino.Os gêneros aparecem como opostos e complementares, porém hierárquicos, o homem dominador e a mulher dominada.
Ser mulher e, portanto, feminina significa ser dona-de-casa passiva, maternal, afetiva e detalhista; ser homem significa ser forte, profissional, agressivo, racional e objetivo. Isso está tão enraizado na cultura e tão introjetado por cada pessoa que aparece como parte da “natureza humana”. Tornando qualquer comportamento sexual diferente desse padrão uma anormalidade. Se seguem esse padrão de submissão dos seus desejos, da não expressão da sua sexualidade e vontade, se servem ao papel de mães abnegadas, voltando todos seu esforço para o bem-estar da família são consideradas virtuosas. Se não atendem a esse padrão, se apresentam “características inerentes aos homens”, ou expressam suas vontades e desejos sexuais são classificadas como profanas. Os homens, dentro desse modelo, em geral vivenciam um grande medo da impotência e, como estão em uma posição de poder a zelar, estão mais propensos e viverem sua sexualidade de acordo com as atribuições do gênero masculino. Se romperem essa norma dominante, se expressarem seus desejos de forma diferentes são estigmatizados e rotulados como “pouco machos”.
Com desenvolvimento do capitalismo, esse modelo patriarcal vem sofrendo modificações, principalmente nas últimas décadas.A chamada segunda onda do feminismo surgida nos anos 60 atuou num ambiente de forte contestação ao sistema capitalista e aos valores tradicionais propiciando a abertura para novas formas de organização. O feminismo mostrou que o pessoal também é político, questionando assim um dos pilares fundamentais da opressão das mulheres no capitalismo, que é a separação da vida entre uma esfera pública e uma esfera privada (família).O feminismo colocou a importância de separar maternidade de sexualidade e defendeu o direito das mulheres de expressar seu desejo sexual.Construiu formas coletivas de expressão das mulheres e para afirmação de seu desejo sexual. Colocou a questão da autonomia e do seu poder de decidir e escolher.Questionou a opressão, a imposição e o castigo.
São inegáveis a importância e contribuição desses movimentos para a libertação sexual das mulheres e construção de novos valores sexuais. Mas também devemos ter clareza de que se por um lado, avançamos denunciando um modelo sexual opressor, discriminatório e desigual, conseguindo várias conquistas, por outro, algumas das lutas defendidas pelo movimento feminista, como acesso ao trabalho foram possíveis de serem alcançadas, não somente pela luta social que esses movimentos feministas vieram desempenhando ao longo desses anos, mas também e principalmente porque, naquele momento o sistema capitalista estava em crescimento e necessitava de mais mão-de-obra além da proporcionada pelos homens, e com custos mais reduzidos que os salários pagos para os homens. Proporcionando as mulheres o acesso ao trabalho, mas em condições ainda de inferioridade, além de proporcionar a essas o surgimento de uma “dupla jornada de trabalho”, o emprego externo e a continuidade do trabalho de casa, historicamente realizado por elas.
Outra situação que nos deparamos atualmente, com o avanço do capitalismo e seus reflexos nas relações de gênero é o desenvolvimento de relações sexuais baseadas no consumo e mercantilização. Por estarmos vivendo em um momento do desenvolvimento do capitalismo em que as relações humanas se dão através do consumo, compra e venda de mercadorias, em que as pessoas são valorizadas pelo que tem e pelo que consomem, acabamos transpondo essa idéia para as relações de gênero também. Observamos, principalmente nas gerações mais jovens, a formação de relações alicerçadas na idéia do consumo do outro, da ampliação das relações por prazer, por quantidade, da preocupação excessiva com a aparência corporal, da necessidade da beleza física para realização dos seus desejos e dos desejos do outro(a) segundo um padrão de beleza, propagandeado principalmente pelos meios de comunicação de massa , haja vista a grande ampliação do número de academias e do aumento exorbitante no número de cirurgias plásticas realizadas nos últimos anos.
Essa mercantilização transmite a falta idéia de que vivemos em uma situação de igualdade entre gêneros. Que ao mesmo tempo em que reduzem a distância entre a virtuosidade e a profanação das mulheres outrora tão evidentes nas relações patriarcais de gênero, propiciam o aparecimento de outras práticas, ainda baseadas na exploração e discriminação sexual. Se por um lado as mulheres puderam experimentar uma maior autonomia para o exercício da sexualidade, através das mudanças políticas e econômicas, como acesso ao trabalho, a educação, aos métodos anticoncepcionais, de outro surgiram novos perigos com a redução da distância entre virtuosidade-profanação, aumentando também a sua vulnerabilidade, crescendo o desrespeito, a violência e a agressividade sobre elas.
É necessário que entendamos que esses valores atualmente propagandeados e reproduzidos nas relações de gênero fazem parte da construção da ideologia dominante, com velhos traços do modelo patriarcal e com novos valores construídos a partir da necessidade do capitalismo, na consciência de ambos os sexos. Ou seja, gênero feminino e gênero masculino são responsáveis igualmente pela manutenção e reprodução desses valores. Devendo-se, portanto partir de ambos os gêneros, a necessidade, numa perspectiva de discussão classista, contra a ideologia dominante, a desconstrução desses valores consumistas, individualistas, discriminatórios e exploratórios, e a construção de novos valores, calcados na igualdade, respeito, e companheirismo entre sexos, sabendo o que nos diferencia e o que nos iguala, enquanto gênero feminino e gênero masculino, promovendo dessa forma um salto qualitativo na construção de verdadeiras relações de gênero livres de preconceitos, tabus, medos, exploração e discriminação sexual.
Bibliografia:
FARIA, Nalu (Org). Sexualidade e Gênero: uma abordagem feminista. São Paulo: SOF,1998.
Texto: Gênero e Classe; Sandra Marli da Rocha Rodrigues. MMC/PR.
Reflexões a respeito de Gênero e Sexualidade na FEAB
O surgimento da bandeira “Gênero e Sexualidade” entre as demais bandeiras de luta da FEAB reflete um amadurecimento político interessante entre os militantes e o Movimento Estudantil da Agronomia. Durante o primeiro ano de sua existência, já experimentamos alguns debates qualificados nos fóruns da FEAB, a discussão, diferentemente de outros setores, na FEAB surge com uma proposta de avanço à discussão (e prática!) sobre as relações de Gênero e Sexualidade, e tem um diferencial, o de não surgir a partir de uma demanda exclusivamente feminina, pelo contrário, ser suscitado e construído por homens e mulheres dentro da Federação.
Nós, mulheres da FEAB também entendemos a Plenária de Mulheres, que acontecerá durante o 49o CONEA (em Cuiabá), como um avanço para a Federação, visto que a Plenária não surge e nem é construída com um objetivo de sectarização do ME da Agronomia, pelo contrário, surge com o objetivo de levantar e aprofundar elementos (a partir da ótica feminina) que possam ser integrados ao debate amplo, entre companheiros e companheiras que se propõem a construir uma nova sociedade, calcada em novos valores.
Não nos pretendemos como um Movimento Femista, mas Feminista, que lute pelo reconhecimento dos direitos das mulheres e valorização do nosso papel, que de forma alguma deve ser construído com base na utilização de argumentos e práticas divisionistas e compensatórias. Divisionistas em relação ao debate, como avançar na discussão sem que os companheiros possam ter a possibilidade de participar e construir conosco as relações de gênero no Movimento Estudantil. Compensatórias no que diz respeito aos ganhos que podem surgir a partir deste debate. Devemos lutar por novas práticas, baseadas em novos valores, buscando a igualdade de direitos e reconhecimento de papéis e potenciais, e não simplesmente compensar a contribuição das mulheres ao ME com “cotas” em espaços, mesas e coordenações. O que devemos sim é lutar e priorizar pela formação de companheiras que tenham um debate qualificado, permitir que as mesmas tenham a possibilidade de contribuir em suas escolas e na FEAB e ME como um todo.
Partindo de uma análise histórica breve do Movimento Estudantil e as mulheres na FEAB percebemos dentro de nossas escolas o papel relevante das mulheres na construção do ME dentro de suas escolas. Mais uma vez, não se busca aqui uma simples quantificação da presença feminina na militância, mas sim levantar aspectos qualitativos desta presença. Construímos, ao longo dos anos, líderes estudantis por diversas escolas do Brasil. Depois da gestão de Pelotas, 2001/2002, onde não houve presença feminina na coordenação nacional, tivemos a Gestão de Curitiba, 2002/2003 com três mulheres, Vitória da Conquista, 2003/2004 com duas mulheres, mesmo ano em que a Coordenação Regional II (PR e SC), de Florianópolis é dirigida em sua maioria quase absoluta por mulheres. No ano de 2004, na escola de Curitiba, também se elege a primeira Coordenadora Geral do CAALV (UFPR) militante da FEAB, segunda da historia deste CA, depois de mais de quatro décadas de hegemonia masculina neste cargo. As coordenações nacionais de 2004/2005 e 2005/2006 (Santa Maria e Lavras respectivamente) trazem em sua composição uma companheira cada, não menos qualificadas e importantes para o processo de construção histórica da FEAB. Vale ressaltar também que no ano de 2005, pela primeira vez na história das Coordenações (da FEAB) na CONCLAEA (1998/1999 Geral; 2001/2002 Geral; 2005/2006 Sul) uma mulher contribui para a construção da Confederação. Esses exemplos são apenas alguns poucos dos que podemos resgatar na historia do Movimento Estudantil da Agronomia de contribuição de nossas mulheres militantes. Isso, sem levar em consideração as inúmeras companheiras que constroem em suas escolas e núcleos de base nossa política.
É peculiar ainda, que essa discussão e ascensão da discussão em torno das relações de gênero surja desta maneira dentro do movimento estudantil de um curso historicamente hegemonizado por homens e, da mesma maneira, historicamente machista e preconceituoso.
A propósito, a discussão a respeito de machismo e preconceito deve ser avaliada e discutida não apenas pelos homens, senão pelas mulheres, que devem ter a percepção de até que ponto contribuem com esta situação de submissão e discriminação. Sim, nós mulheres também temos nossa parcela de culpa nesta situação e faz parte de nosso compromisso construir novas formas de relacionamento entre nós e nossos companheiros.
A FEAB tem grandes chances de contribuir com o Movimento Estudantil a partir de uma ótica diferencial e qualificada a respeito das relações de gênero e de sexualidade, desde que se mantenha no caminho que vem seguindo, construindo o debate fraterno, juntando companheiros e companheiras, superando tabus, chavões e práticas machistas, desvios femistas e valores medíocres da sociedade burguesa.
Pelo Socialismo, a construção de novos valores é fundamental!
Contribuição do Núcleo de Trabalho Permanente de Juventude Cultura e Valores - NTP FEAB
UFPR - Curitiba - PR (2007)
