terça-feira, 5 de agosto de 2008

Bandeira - Movimentos Sociais Populares

I - O que é o agronegócio?
A palavra agronegócio tem um sentido genérico, referindo-se a todas as atividades de comércio com produtos agrícolas. Quando um pequeno agricultor vende um produto na feira está praticando um agronegócio. Quando um feirante vende frutas e verduras está praticando agronegócio. Essa é a essência do sentido da palavra, usada em nível internacional.
No entanto, aqui no Brasil a expressão foi utilizada pelos fazendeiros, por intelectuais das universidades e, sobretudo, pela imprensa para designar uma característica da produção no meio rural. Eles denominaram de agronegócio aquelas fazendas modernas, que utilizam grandes extensões de terra e se dedicam à monocultura. Ou seja, que se especializam num só produto, tem alta tecnologia, mecanização - às vezes irrigação - pouca mão-de-obra, e por isso, falam com orgulho que conseguem alta produtividade do trabalho. Tudo baseado em baixos salários, uso intensivo de agrotóxicos e de sementes transgênicas. Na maior parte dos casos, a produção é para a exportação. Em especial, cana-de-açúcar, café, algodão, soja, laranja, cacau, além da pecuária intensiva. Esse tipo de fazenda é o chamado agronegócio.Mas o que há de novo? Nada. Se estudarmos com atenção, é o mesmo tipo de modo de produção que foi utilizado no período da Colônia, nos tempos do modelo agroexportador. Muda-se apenas de trabalhador escravizado para assalariado e as técnicas passam a ser modernas. E esses salários, segundo estudos, são os menores em comparação com as remunerações da indústria, do comércio e das fazendas dos países desenvolvidos ou competidores. Muitos estudiosos brasileiros afirmam que não são nosso clima e nossa sabedoria agrícola as vantagens comparativas que os fazendeiros brasileiros têm, mas sim a falta de respeito com seus empregados e de controle por parte do governo em relação à agressão que promovem ao meio ambiente, sem nenhuma responsabilidade com as gerações futuras. Há, por exemplo, inúmeras denúncias de agrônomos e cientistas dos estragos que a implantação da soja vem fazendo nos biomas da natureza do cerrado e da pré-Amazônia.II. A falsa propaganda do agronegócio e sua aliança de classe:
Nos últimos anos, os meios de comunicação brasileiros, principalmente os grandes jornais e as televisões, têm feito propaganda sistemática em favor do modelo do agronegócio, como se fosse a salvação do Brasil. Colocam ele como o responsável pelo crescimento de nossa economia, pela geração de empregos, por uma agricultura moderna e pela produção de alimentos.
Todos esses argumentos utilizados na propaganda não se sustentam em uma análise mais rigorosa:
- O agronegócio é responsável pelo crescimento econômico do PIB: as atividades agrícolas propriamente ditas, lavoura e pecuária, correspondem a apenas 12% de toda a produção nacional. Então, mesmo que a agricultura dobre o valor ou o volume de produção, sua influência na economia total é muito pequena. Os propagandistas do agronegócio costumam misturar a agricultura com agroindústria, para dizer que o peso na economia aumenta para 37%. Mesmo assim, o peso e o crescimento da agroindústria não dependem da área cultivada, mas do mercado consumidor. Se o povo da cidade tiver dinheiro para comprar mais alimentos, aumenta a agroindústria no Brasil. Portanto, seu sucesso depende do valor do salário mínimo e da distribuição de renda nos centros urbanos.
- O agronegócio é responsável pelo sucesso da indústria: nada mais fantasioso. No final da década de 1970 e início da década de 1980, no auge da agricultura subordinada à indústria e com crédito fácil para expandir a industrialização da lavoura, cerca de 65 mil tratores eram vendidos por ano, de todos os tipos. Passaram-se 30 anos, implantou-se o agronegócio do neoliberalismo e a venda de máquinas em 2004, no auge do sucesso apregoado, foi de apenas 37 mil unidades. As indústrias tiveram de vender outras 35 mil unidades para o exterior para não falirem. Pior: pelos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no último censo, as fazendas com mais de 2 mil hectares tinham no seu patrimônio apenas 35 mil tratores. Por outro lado, as pequenas propriedades, com menos de 200 hectares, tinham mais de 500 mil tratores.
- O agronegócio tomou conta da agricultura brasileira: se o agronegócio fosse tão bom, por que não aumenta a área cultivada no Brasil? Desde a década de 1980, a área total cultivada com lavoura temporária não passa de 45 milhões de hectares.
- O agronegócio é a atividade que gera emprego no meio rural: pelos dados do IBGE, nas fazendas acima de 2 mil hectares há apenas 350 mil trabalhadores assalariados. Bem menos do que os 900 mil assalariados que a pequena propriedade emprega. Ou seja, o modo de produzir da fazenda do agronegócio, que se moderniza permanentemente, expulsa mão-de-obra do campo, ao invés de gerar emprego aos trabalhadores.
- O agronegócio distribui renda no campo: a escravidão no campo continua e os lucros se restringem aos proprietários das fazendas.
- O agronegócio significa desenvolvimento dos municípios e das economias locais: em todas as regiões nas quais predominam as fazendas do agronegócio, a renda dos latifúndios é levada para os grandes centros. Seja porque a maior parte do seu custo de produção (máquinas, venenos, sementes) vem de outros centros e, portanto, ao pagar esses custos, o dinheiro volta para lá; seja porque o seu proprietário raramente vive na cidade em que se localiza a fazenda. Em geral, ele mora nos grandes centros e, portanto, quanto aufere seu lucro com as exportações, aplica em consumo de luxo, apartamentos, etc. Sequer o “rancho” para seus empregados é adquirido no comércio local, sendo comprado, em geral, em centros mais distantes, onde os preços são menores. Por isso, as cidades dominadas pelo agronegócio, ao contrário de se desenvolverem, sofrem com o inchaço provocado pelo êxodo rural, aumentando a pobreza de suas periferias. Cenário completamente distinto dos locais em que predomina a policultura, a produção de alimentos e a pequena agricultura, que mantém e faz girar toda a riqueza no próprio município.Se essas informações são oficiais e de fato as fazendas do agronegócio não representam solução para os problemas agrícolas e sociais brasileiros, por que então se faz tanta propaganda? Por uma questão ideológica. Está em curso na sociedade brasileira uma disputa de modelo econômico e de produção agrícola. As fazendas do agronegócio representam a parcela da burguesia nacional que possui ativos na agricultura e que se aliou, ou melhor, que se subordinou ao capital estrangeiro representado pelos interesses das grandes empresas transnacionais. Essas empresas não só têm participação no lucro obtido do comércio agrícola internacional e das agroindústrias, como mantém fortes laços econômicos e ideológicos com as empresas de comunicação de massas. Está em curso uma tríplice aliança entre os fazendeiros do agronegócio, as empresas transnacionais que controlam a agricultura e as empresas de comunicação.
Apenas 10 transnacionais têm o controle monopólico das principais atividades agrícolas do país. São elas: Bunge, Cargill, Monsanto, Nestlé, Danone, Basf, ADM, Bayer, Sygenta e Norvartis. Basta olhar seus comerciais nas televisões e ver o seu grau de envolvimento com a mídia.III. As influências do agronegócio no governo Lula:
O governo Lula foi eleito em outubro de 2002 com uma propaganda e compromissos claramente contrários à manutenção da política econômica neoliberal, opostos à prioridade dada pelo governo FHC ao agronegócio. Todos aqueles que votaram em Lula queriam mudanças. Caso contrário, teriam votado no candidato tucano José Serra.
No entanto, passadas as eleições, o governo Lula se revelou um governo ambíguo, que apesar de prometer mudanças, se baseou em alianças de partidos e de classe que ainda defendem o neoliberalismo, ficando refém do capital financeiro internacional. Na política econômica, administrada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central, manteve-se a linha anterior, com responsáveis claramente identificados com o partido perdedor. Para o Ministério da Indústria e Comércio, que cuida das exportações (mas poderia cuidar do mercado interno) e para o Ministério da Agricultura foram nomeados ministros identificados com o modelo do agronegócio. O ministro Luiz Fernando Furlan é sócio da Sadia e o ministro Roberto Rodrigues possui fazendas em Ribeirão Preto e no sul do Maranhão, que se dedicam ao agronegócio da soja, cana e laranja.
Na política do setor público agrícola, o governo não conseguiu reverter ainda o quadro de abstenção do Estado. No crédito rural, houve um esforço do governo para criar o seguro agrícola, que interessa particularmente aos pequenos agricultores. Houve um esforço para aumentar os recursos de crédito destinados à agricultura familiar, através do Pronaf, que saltaram de 2 bilhões para 5 bilhões de reais. Mas isso não significa mudanças na estrutura fundiária. Os recursos públicos que estão sendo alocados pelo Banco do Brasil e pelo BNDES para as fazendas que se dedicam à exportação não foram reduzidos. O próprio Banco do Brasil fez propaganda nos jornais e revistas, mostrando que concedeu um volume de crédito de mais de 5 bilhões de reais para aquelas dez empresas transnacionais que controlam a agricultura e para algumas poucas empresas transnacionais da celulose. Ou seja, menos de 15 empresas receberam o mesmo volume dos recursos que foram destinados para 4 milhões de agricultores familiares.
Dessa forma, embora o governo tenha se comprometido com a Reforma Agrária e com o fortalecimento da agricultura camponesa, na prática os Ministérios mais fortes atuam claramente priorizando a agricultura do agronegócio, a monocultura e exportação de grãos.IV. O peso do agronegócio em nossa sociedade:
V. Sobre a renegociação das dívidas dos latifundiários no Nordeste:
Os privilegiados de sempre, fazem de tudo para manter as coisas como estão. Nesta semana querem que suas dívidas sejam roladas para o tesouro nacional pagar. Os latifundiários do nordeste pedem um repasse de 7 bilhões de reais ao cofres públicos. Com o dinheiro, apenas 30 mil médios e grandes fazendeiros (que eles incluem pequenos) serão beneficiados. Os 4 milhões de camponeses e camponesas nordestinos não serão atendidos.Em todo o país, as dívidas anteriores a 1995 dos produtores rurais ligados ao agronegócio somam 26 bilhões de reais. Elas já foram renegociadas em 1995, quando todos os devedores médios e grandes com dívidas 200 mil reais tiveram os prazos de pagamento alongados e taxas menores. Aqueles que tinham dívidas acima de 200 mil reais entraram no Programa Especial de Sanemanto de Ativos (PESA), criado pela lei 9.318.Em 1998, quando venceu o prazo para o início do pagamento das dívidas dos ruralistas que optaram pela securitização, o governo federal autorizou mais dois anos de carência e novas taxas de juros, além de beneficiar os fazendeiros no PESA. Permitiu-se o pagamento de, no mínimo, 32,5% da parcela inicial até 31 de outubro de 2001 e o restante da prestação foi incorporado ao saldo devedor para ser pago em parcelas anuais até 2025. A inadimplência chega a 90%. Já entre os pequenos produtores e assentados, os atrasos no pagamento são inferiores a 2%. Com esse dinheiro seria possível resolver os problemas dos pobres do campo. Porém, com o povo brasileiro pagando as dívidas dos fazendeiros e sem produzir para a nação, o agronegócio sai mais uma vez ganhando. A Câmara e o Senado já aprovaram a renegociação para os latifundiários nordestinos, mas esperamos que o Presidente Lula vete mais essa manobra.
VI. O debate nos meios acadêmicos e jornais:
O poder de influência do agronegócio é tão grande que afeta também intelectuais e jornalistas, que reproduzem a luta ideológica nos meios universitários e na imprensa. É comum vermos artigos e reportagens cantando em prosa e verso as belezas do agronegócio. Alguns intelectuais, inclusive com origem na esquerda, defendem que a saída para a pequena agricultura seria também entrar no agronegócio. Sindicalistas já copiaram mal essa idéia e chegam a falar em “agronegocinho”. Não percebem que, de fato, há uma luta entre dois modos de organizar a produção agrícola em nossa sociedade. O modo do agronegócio, que já descrevemos acima, e de outro lado, a agricultura camponesa, baseada em estabelecimentos agrícolas familiares, menores, que se dedicam à policultura (produzem vários produtos) de alimentos, dão trabalho a milhares de pessoas, da família e de fora dela, que produzem e desenvolvem o mercado local e interno.
Alguns chegam a argumentar que é possível a convivência dos dois modelos. Trata-se apenas de uma forma envergonhada de defender o agronegócio. É claro que sempre haverá unidades de produção maiores e que se dedicam à exportação. É preciso identificar que tipo de prioridade e de política agrícola o governo e a sociedade defendem.
A nossa sociedade vai usar a terra e a agricultura para produzir alimentos, distribuir renda e fixar o homem no território ou vai entregar as terras para as grandes fazendas, que vão expulsar a população, ganhar muito dinheiro e dar prioridade para a exportação?
Essa é a verdadeira disputa. São dois projetos de agricultura para o Brasil. Por essa razão, os representantes do agronegócio atacam tanto a Reforma Agrária. Aparentemente, não há relação afinal, se o agronegócio possui fazendas produtivas, elas estão a salvo da desapropriação. Então, por que o agronegócio ataca a Reforma Agrária, inclusive por intermédio dos ministros da Agricultura e da Fazenda?
Por duas razões: primeiro, porque eles sabem que a Reforma Agrária fortalece o modelo contrário de ocupação da terra e de produção agrícola. Em segundo lugar, porque eles também são proprietários do latifúndio improdutivo, que ao invés de ser compartilhado para ter uma função social, gerar emprego, distribuir renda e melhorar as condições de vida de nosso povo, é mantido como uma espécie de reserva de valor, para especulação ou para futura expansão de suas fazendas.
Portanto, não é possível compatibilizar os dois modelos. Eles poderão conviver por muito tempo, mas, do ponto de vista de proposta para a nossa sociedade, é preciso se definir: ou se defende a forma do agronegócio, ou se defende a agricultura camponesa, a fixação do homem no campo e a soberania alimentar. Definir-se pelo modo de produzir do agronegócio é aceitar também o modelo econômico neoliberal dominado pelos bancos, pelo capital financeiro e pelas transnacionais.
Como diz o ditado popular, não se pode “acender uma para Deus e outra para o diabo”.
Atenciosamente,
Secretaria Nacional do MST.

domingo, 3 de agosto de 2008

Bandeira - Relações Internacionais

A FEAB E SUAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Buenos días America!

“Despertei sussurrando uma nova canção, em minha janela já há um Sol. Bom dia América! Como estás bem! Bom dia Brasil, meu gigante, siga em frente...” (Buenos días America – Pablo Milanes)

A discussão a respeito das Relações Internacionais entre os estudantes de agronomia nos remete aos anos 60, quando o Diretório Central de Estudantes de Agronomia do Brasil – DCEAB discutia a realização de um evento que pudesse reunir estudantes da América Latina, e tratar questões comuns. Esse evento aconteceu no ano de 1963, na atual UFRRJ. Foi a I Convenção Latino-Americana de Estudantes de Agronomia, evento de teor acadêmico, visando a questão agrária e do ensino agronômico na América Latina principalmente. Uma segunda edição desta convenção chegou a ser realizada dois anos mais tarde, no México, mas o período de regimes militares que já começava a se instalar no continente interrompeu a articulação recém-criada entre os estudantes, bem como colocou na clandestinidade o DCEAB, e outras organizações estudantis da América Latina.
No início dos anos 80 a discussão retorna, e algumas correspondências passam a ser trocadas entre militantes da FEAB e países latino-americanos, bem como o surgimento da discussão a respeito da criação de uma Confederação Latino Americana de Entidades Estudantis de Agronomia. É no ano de 1989 que, durante o XIII Festival Mundial da Juventude, realizado na República Popular da Coréia, que sete paises latino-americanos (entre eles o Brasil), assinam um manifesto para a realização do I Congresso Latino Americano e Caribenho de Entidades Estudantis de Agronomia – o CLACEEA. Nesta época, a discussão sobre as relações internacionais na FEAB girava em muito em torno da filiação e participação no IAAS (Associação Internacional dos Estudantes de Agricultura); a FEAB chegou a participar de alguns fóruns da entidade. Na ocasião do encontro da juventude, uma articulação entre a FEAB e a AEIA (Associação dos Estudantes de Agronomia na Nicarágua), fez surgir a idéia da realização de uma espécie de estágio de vivência entre os estudantes dos dois países, projeto que seria concretizado a partir do I CLACEEA, que realizou-se em Pelotas, sede do recém-criado NTP RI.
Pela participação de poucos países neste primeiro congresso (além do Brasil estavam presentes estudantes do Chile, Nicarágua, Argentina e El Salvador), optou-se por realizar um II CLACEEA, de mesma temática, no ano seguinte, na Bolívia. Surge então, a Confederação Caribenha e Latino Americana de Estudantes de Agronomia – a CONCLAEA.
A FEAB esteve à frente da entidade, enquanto Coordenação Geral por três vezes, nos anos de 1994, 1998 e 2002, organizando o CLACEEA em 1991 e 2004, e como Coordenação Sul em 2005. Vale ressaltar que este ano, durante o XVI CLACEEA, na Colômbia, os paises lá presentes decidiram por dissolver as tarefas das Coordenações Norte e Sul entre as organizações, de acordo com suas disponibilidades, mantendo-se fixas e centralizadas apenas a sede do pré-CLACEEA, sede do CLACEEA e Coordenação Geral.
A CONCLAEA nasce como um espaço de articulação e fortalecimento das entidades estudantis na América Latina e Caribe. Não se trata se uma entidade de base, muito menos de massa. Ela é o instrumento das direções do Movimento Estudantil de Agronomia e deve ser entendida como tal, para que se evitem equívocos teóricos e práticos em sua construção. A CONCLAEA é parte de um plano estratégico de articulação latino-americana, na construção da integração dos povos.
“... En primer lugar, yo considero mi pátria no solamente a la Argentina, sino a toda America. Tengo antecedentes tan gloriosos como el de Martí y es precisamente en su tierra en donde yo me atengo a su doctrina.” (Che Guevara)

Essa busca por integração entre os países tem precedentes históricos. A América Latina sofreu o mesmo processo de roubo e violação de seus povos, recursos, cultura, desde que chegaram em nossas terras os colonizadores da Europa. Impérios surgiram e foram derrubados ao longo dos séculos, sob o pretexto do desenvolvimento da humanidade. O que a história esquece de contar é que, o subdesenvolvimento não é uma fase do desenvolvimento, como nos alerta Eduardo Galeano, mas sim uma de suas conseqüências. Portanto, se nós (latino-americanos) perdemos algo nesses mais de 500 anos de exploração, alguém ganhou. Esse povo ‘que tem o costume de sofrer com os dentes cerrados’ tem aprendido, entretanto, a se organizar. Tem entendido que nosso silêncio só permite a manutenção desse sistema de exploração e reprodução da miséria, da perda de nossa identidade e auto-estima enquanto povo.
As experiências de organização pelas quais vem passando os povos do nosso continente devem ser acompanhadas de perto. E a CONCLAEA tem muito a contribuir nessa tarefa. E a FEAB, enquanto membro da Via Campesina também. Entender a unidade dos povos explorados como importante avanço no deslocamento da correlação de forças quando se fala em transformações estruturais da sociedade, que necessariamente precisam dessa articulação, é caminhar rumo ao avanço da libertação da Pátria Latino Americana.
Como nós, FEAB, devemos, portanto, nos colocar frente à CONCLAEA? Há que primeiro analisar o momento pelo qual passa nossa Confederação. É inegável o avanço da articulação entre as organizações pertencentes à CONCLAEA hoje. No marco de seus pouco mais de 14 anos (menos da metade da ‘idade’ da FEAB), a CONCLAEA está hoje, estabelecida e organizada, como um fórum de entidades estudantis, avançando em termos políticos e organizacionais. No último Congresso, onde estiveram presentes sete países, deliberou-se pelo Socialismo, em pleno território fascista e em guerra civil pelo qual atravessa a Colômbia. As ‘pasantías’, Estágios de Vivência que ocorrem depois dos congressos, junto aos movimentos sociais do país sede do CLACEEA ocorrem todos os anos, tanto estes, de caráter internacionalista, como os de caráter local, voltados aos estudantes do próprio país. O sentimento de pertença à organização já faz estudantes de outros cursos (afins aos de ciências agrárias) levar à frente a bandeira da CONCLAEA em seus países, como é o caso do Peru, México e Paraguai. Esse mesmo sentimento de pertença desperta nos jovens militantes o desprendimento necessário para construir o movimento estudantil nos países América, trancando os cursos e saindo de seus países, resgatando a ‘cultura mochileira’, como dizem os companheiros argentinos, questões tão importantes para o fortalecimento dos valores que constroem militantes para a vida. Por que não falar também dos diversos intercâmbios que tem ocorrido entre os estudantes dos países, durante eventos organizados pelas entidades, como encontros, congressos, jornadas, estágios e cursos!?!?
O movimento começa a entender seu papel. A América Latina passa por um processo de rearticulação de forças, rumo à ascensão das lutas sociais. E a expressão mais militante existente hoje dentro da América latina, enquanto Movimento Estudantil, é, sem dúvida, a CONCLAEA. E ela nos chama, FEAB, a discutir, a compor e a construir, talvez por opção política, talvez por compromisso histórico, talvez por sentimento de ‘latinidade’, por resgate cultural, necessidade de rever dívidas históricas, ou quem sabe por todos esses motivos juntos.
A FEAB é um exponencial dentro do Movimento Estudantil no Brasil, e muito de sua maturidade política se deve ao comprometimento junto ao povo e aos movimentos sociais. Esse mesmo trajeto vem sendo traçado, via de regra pelas organizações que compõem a CONCLAEA, e isso é um marco, um norte para os militantes da América Latina, que trás consigo o fardo pesado e amargo, de ‘uma história de dominação’ mas também ‘um sonho de liberdade’, como em Curitiba, no 45o CONEA, em 2002, sob o vento frio do inverno paranaense, a gigante bandeira que saúda o Socialismo balançava e os militantes da FEAB discutiam o papel dos estudantes e da juventude frente à América Latina hoje.
É nosso papel, enquanto membros da Via Campesina e da CONCLAEA fortalecer as relações entre os Movimentos Sociais e o Movimento Estudantil na América Latina e no Caribe, pela articulação dos trabalhadores, camponeses e estudantes organizados, comprometidos com a transformação da América, e a construção da nova história de nosso continente. A CONCLAEA é o instrumento de retomada do avanço das movimentações sociais.
Desperta FEAB, e desperta a América Latina: esse é o ‘nosso povo, nossa luta e nossa história’. É chegada a hora de formar quadros comprometidos com a causa socialista no mundo, não somente em nossos lares e universidades, e militantes sociais, e não somente aqueles que fazem de sua juventude a cota de militância. Esses são bons, mas precisamos de pessoas imprescindíveis, daquelas que lutam por toda a vida, como lembra Brecht.
Estudar a América Latina, suas experiências, avanços e retrocessos é nosso dever histórico. Sempre há aprendizado, com qualquer que seja a experiência, por mais que a mesma tenha erros e limitações. Para tanto, vale encerrar essa breve reflexão sobre o movimento estudantil da Agronomia na América Latina e no Caribe, com o trecho de um discurso proferido por Che Guevara, em 28 de julho de 1960, em virtude do I Congresso Latino Americano da Juventude, que a nós, organização CONCLAEA pode ser muito útil, e nos faz entender muitas coisas, e quem sabe rever outras tantas:
“... Esa es una de nuestras grandes fuerzas: las fuerzas que se mueven en todo el mundo y que olvidan todas las banderas particulares de las luchas nacionales, para defender, en un momento dado, la Revolucion cubana. Y me permitiría decir-lo, que es un dever de la juventud de America, porque esto que hay aquí es algo nuevo, y es algo digno de estudio. No quiero decirles yo lo que tiene de bueno; ustedes podrán constatar lo que tiene de bueno.
Que tiene mucho de malo lo sé; que hay mucha desorganización aquí, yo lo sé. (...) que todavía nuestro ejército no ha alcanzado el grado de madurez necesaria, ni los milicianos han alcanzado la suficiente coodinación para constituirse en un ejército, yo lo sé.
Pero lo que yo sé, y quisiera que todos ustedes supieran, es que esta Revolución se hizo siempre contando con la voluntad de todo el pueblo de Cuba, y que cada campesino y cada obrero, si maneja mal el fusil, está trabajando todos los días para manejarlo mejor, para defender su Revolución. (...)
Y de todos los otros hermanos países de América, y de nuestra tierra, si todavía persistiera como ejemplo, les contestará la voz de los pueblos, desde ese momento y para siempre: ‘Así sea: que la libertad sea conquistada en cada rincón de América!’”

Núcleo de Trabalho Permanente de Juventude Cultura e Valores - NTP FEAB
UFPR Curitiba PR julho de 2006.

A CONCLAEA se organiza através de três coordenações definidas anualmente durante a realização dos CLACEEA’s. São elas:

Coordenação Norte: responsável pelos países da América Central e o México. Atualmente a Coordenação Norte está sob a responsabilidade do México.

Coordenação Sul: Responsável pelos países da América do Sul. Atualmente assumida pelo Uruguai.

Coordenação Geral (CG): Responsável pela organização, articulação e comunicação com todos os países da Confederação. Atualmente sob responsabilidade da FEAB/BRASIL.

Uma das principais ações desenvolvidas pela CONCLAEA são as “passadas”, geralmente realizadas pela Coordenação Geral. Estas visitas de intercâmbio político cumpriram importante papel na articulação de organizações em vários países, como exemplo a FEAC – Federação dos Estudantes de Agronomia da Colômbia. Além da CG, outros países também desempenham essa tarefa de realizar as passadas, a partir de compromissos assumidos durantes os congressos, visando dividir tarefas, tornando esse trabalho mais viável através da relação entre países vizinhos.
A eventos e instancias de deliberação da CONCLAEA são:
Pré-CLACEEA: evento realizado anualmente, geralmente nos meses de agosto ou setembro, cujo objetivo é a construção do próximo congresso, definindo temática, grade e palestrantes. Participam deste espaço representantes dos países que compõem a Confederação. O próximo pré-CLACEEA será realizado na Argentina.
CLACEEA: Evento também anual, ocorre geralmente em janeiro. É a instância máxima de deliberação da CONCLAEA, onde se define as linhas de atuação e ações da Confederação para o próximo ano. Também define-se a sucessão das instancias (coordenações e eventos). O último CLACEEA foi realizado no Brasil, na cidade da Lapa, PR. O próximo será sediado pela Colômbia.
Desde o primeiro CLACEEA realizado no Brasil, o evento já passou por Bolívia, Argentina, Uruguai, Nicarágua, Cuba, México, Peru, Venezuela, Paraguai, Guatemala e Colômbia. A FEAB organizou o CLACEEA quatro vezes, nos anos de 1991 (Pelotas), 1998 (Curitiba), 2004 (Maringá) e 2008 (Curitiba/Lapa-PR).

A Coordenação Geral atual

O debate de relações internacionais esteve bastante presente nesses últimos tempos nos espaços de discussão da FEAB. A participação de militantes em atividades da CONCLAEA tem possibilitado o aprofundamento e disseminação desse debate pelas escolas da FEAB. Prova disso foi a grande mobilização gerada em torno da participação das escolas no último CLACEEA realizado no Paraná, quando um ônibus partiu de Mossoró recolhendo gente pelo país todo na “Caravana da FEAB rumo ao CLACEEA”.
Foi a partir desse acúmulo que a FEAB reunida no último CLACEEA assumiu o compromisso de ser a Coordenação Geral da CONCLAEA no ano de 2008. Para tal missão, algumas escolas disponibilizaram militantes para trancar período e fazer as passadas, outras escolas pegaram atividades mais internas, porém todas assumiram o compromisso de levar o debate de RI para suas bases e dessa forma contribuir para o crescimento da nossa Federação e da CONCLAEA.
No momento em que escrevemos este texto há um companheiro e uma companheira na Venezuela, onde estão conhecendo a realidade daquele país, estabelecendo contato com os estudantes e com movimentos sociais, além de pautarem as deliberações do último congresso. Outro companheiro está no Paraguai desenvolvendo os trabalhos da confederação e seguirá em breve para a Argentina.
As tarefas da CG ficaram assim planejadas:
Responsáveis pelas passadas:
América Central:

1º semestre: Merci (Viçosa) e Marco (Rural do Rio)
2º semestre: Merci (Viçosa) e Luis (Lavras)
América Andina (Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia)

1º semestre: Thomas (Curitiba) e Leila (Lavras)
2º semestre: Thomas (Curitiba) e Ana (Lavras)
Cone Sul (Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile)

1º semestre: Rato (Mossoró)
2º semestre: Rato (Mossoró) e Ester (Lages)
Secretaria Operativa:

1º semestre: Lavras
2º semestre: Montes Claros

Ainda há muito que avançar, e o avançar se dá principalmente na prática. Ano passado a militância da FEAB esteve presente no CLACEEA da Guatemala com três escolas, no Pré-CLACEEA da Colômbia com duas e no 50º CONEA em Aracajú estiveram presentes três militantes da FAEA – Federação Argentina dos Estudantes de Agronomia, levando grande contribuição para o debate de RI. Além disso, o NTP RI esteve presente no CNEA – Congresso Nacional dos Estudantes de Agronomia da Argentina, e posteriormente realizou visitas em algumas universidades conhecendo assim um pouco melhor a dinâmica daquela entidade. Depois disso fizeram uma passada no Paraguai restabelecendo contato com os estudantes deste país que a muito tempo não participavam dos espaços da CONCLAEA.
E assim seguimos construindo a CONCLAEA. Esperamos que nesse CONEA possamos aprofundar ainda mais o debate sobre o internacionalismo, utilizando como subsídio as experiências que nossos companheiros que estão na estrada irão nos trazer.

Hasta la victoria compañeros y compañeras!
1 Trechos selecionados do documento de contribuição de Curitiba ao 49º CONEA, escrito por Ceres Luisa Antunes Hadich, ex militante da FEAB e da CONCLAEA

NTP Relações Internacionais
Lavras – MG, maio de 2008

Referências: * Relatos históricos do NTP RI - FEAB, gestão Pelotas e gestão Curitiba; * Relatos pessoais da Coordenação Sul, gestão FEAB 2005/2006; * GUEVARA, E. America Latina: despertar de un continente. Ed. Ocean, 2003. Austrália; * GALEANO, E. As Veias Abertas da América Latina. Ed. Paz e Terra, 43a edição, 2002. Brasil.

Bandeira - Formação Profissional

O Ensino Agronômico

O ensino agronômico no Brasil teve início no século passado, quando da criação da Imperial Escola Agrícola da Bahia (1875) e a Imperial Escola de Agronomia e Veterinária, em Pelotas, RS (1883). Até o início da República, o ensino agronômico funcionou sem diretrizes. Mesmo instalando-se nesse período novas escolas de agronomia, como de Piracicaba/SP (1901) e Lavras/MG (1908), a agronomia não ocupava os espaços abertos no cenário da produção agrícola nacional, sendo quase inexistente o Engenheiro Agrônomo como profissional.
O ensino agronômico somente é realmente instituído no Brasil em 1910, quando foi aprovado o primeiro regulamento, em todos os níveis e modalidades.
Após esse passo inicial, o ensino agronômico desenvolveu-se e foram criados inúmeros serviços técnicos oficiais, iniciando-se a fase da pesquisa e experimentação agrícola, concomitantemente com a criação e funcionamento das escolas de Agronomia de Porto Alegre/RS (1901), Rio de Janeiro/RJ (1910), Fortaleza/CE (1913), Curitiba/PR (1918), Recife/PE (1918) e Viçosa/MG (1928).
No período Vargas e com a crise econômica que abalou o mundo (crise de 1929), iniciou-se um movimento renovador das atividades agropecuárias, devido à crises cíclicas da economia capitalista, principalmente naquelas calcadas na monocultura, como a do Brasil.
A evolução da consciência da profissão de Engenheiro Agrônomo teve grande impulso, quando em 1933 foi criada a Diretoria Geral da Agricultura e a Diretoria de Ensino Agrícola pelo Ministério da Agricultura, primeiro órgão específico de controle, administração, supervisão e fiscalização do ensino agrícola no país, culminando com a edição do Decreto nº 23.196, de 12 de outubro de 1933, que regulamentou o exercício da profissão agronômica no Brasil.
Até a década de 50, a existência de escolas de agronomia sofreu evolução gradativa, as quais sempre se preocuparam exclusivamente na formação de Engenheiro Agrônomo, através de pequenas turmas, com capacidade ociosa ou relativamente ociosa em muitos casos, mesmo no caso das escolas estaduais ou federais. As escolas particulares, embora enfrentando as mais diversas dificuldades, só vieram a ter situação equacionada com a federalização ou absorção pelos governos estaduais, já na década de 60.
A partir dos anos sessenta esta ciência se insere em um novo patamar tecnológico. A modernização conservadora promovida pelo governo militar fazia parte de um profundo processo de mudanças econômicas que refletiu na agricultura através da chamada Revolução Verde. Até este momento, a ciência agronômica serviu para manter o caráter de um país agrícola.
Do início do ensino de agronomia até a década de sessenta, toda a política de educação agrícola da Agronomia era regida pelo Ministério da Agricultura. A política de ensino para essa área era um instrumento a serviço da produção agrícola. Embora os principais cursos estivessem há muito tempo incorporados às Universidades, foi somente a partir da década de sessenta que essa questão passou a ser tratada como formação e não mais como elemento exclusivo da política de produção.
As conseqüências do modelo agrícola adotado provocaram as primeiras reações a esta concepção profissional. Tendo as crises sociais e ambientais, forte influência na reflexão de estudantes e profissionais da área agronômica. Com os movimentos de agricultura alternativa à Revolução Verde e a discussão sobre o papel profissional nos anos setenta e oitenta, passa-se a debater a formação do agrônomo sob novas perspectivas.
Naquele momento, cria-se a idéia de um profissional com formação generalista, humanística e crítica, com amplo conhecimento metodológico capaz de compreender e intervir em processos econômicos, sociais e culturais. Pretendia-se ainda a unificação de conteúdos básicos a nível nacional e uma alteração no perfil pedagógico tido como informativo e não-formativo. Estas concepções concretizaram-se na proposta do Currículo Mínimo.
Atualmente está em curso um processo de alterações curriculares ou Reforma Curricular. Esta nova etapa apresenta alguns pressupostos como a participação da comunidade acadêmica e a discussão e criação de um projeto político-pedagógico para os cursos. Este processo se insere na necessidade da formação profissional em um novo contexto, a globalização.
Em 10 de março de 1998 através da Portaria da Secretaria de Ensino Superior – SESu MEC n° 146 foram instituídas as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Ciências Agrárias. Estes cursos concluíram que não é viável diretriz igual, ou seja, cada curso deverá ter sua diretriz específica. Dessa forma, hoje existe a enorme necessidade de se elaborar as diretrizes para o curso de agronomia a fim de elaborar o projeto político pedagógico do curso. Nesse processo de construção é fundamental que haja a participação do Ministério da Educação, do Conselho Federal de Engenharia Arquitetura e Agronomia, dos Conselhos Regionais, das Universidades, das entidades de classe e das organizações estudantis.
É nesse contexto que a FEAB realizou em abril de 2004 o I Seminário Nacional do Projeto Política Pedagógica da Agronomia (I SENAPPPA) em Viçosa-MG, com a participação dessas entidades e organizações, objetivando discutir a Formação do Profissional.
Temos a total clareza que o I SENAPPPA foi o primeiro passo e que ainda é preciso envolver com mais propriedade setores da academia e das outras entidades ligadas à Educação Agrária. Nesse sentido nos sentimos responsáveis por continuar essa discussão em nossos espaços de formação a fim de contribuirmos para a construção de um projeto político pedagógico que seja capaz de formar profissionais altamente competentes.
A FEAB compreende que o processo educativo precisa ter como objetivos: o desenvolvimento do ser humano e seu aperfeiçoamento; a formação dos cidadãos capazes de compreender criticamente a realidade social e consciente dos seus direitos e responsabilidades, desenvolvendo-lhes os valores éticos e o aprendizado da participação; o preparo de cidadãos para a compreensão e o exercício do trabalho, mediante acesso, as culturas, ao conhecimento científico, tecnológico e artístico e ao desporto; a produção e a difusão do saber e do conhecimento; a valorização e promoção da vida; a preparação do cidadão para efetiva participação política; o fortalecimento da soberania do país, da unidade da soberania nacional e da solidariedade internacional, pela construção de uma cidadania contrária à exploração, opressão ou desrespeito à espécie humana, a natureza e ao patrimônio cultural da humanidade.




Referências:
Tese Chalito;
Projeto 44º e 48º CONEA

Bandeira - Gênero e Sexualidade

Os estudos que demonstraram que a sexualidade é uma construção histórica, foram fundamentais para demonstrar que as condutas sexuais não são naturais, nem simplesmente fruto das manifestações biológicas, que são na verdade, resultantes de manifestações culturais, políticas e econômicas.
No caso do Brasil, que faz parte do que chamamos de cultura ocidental cristã, os principais estruturadores do modelo sexual dominante são a religião católica, a cultura européia, o desenvolvimento do capitalismo e todas as mudanças ocorridas a partir dele.
A visão religiosa, identificando a mulher como subproduto do homem e aliada a essa, a visão biológica, definindo a mulher como inferior ao homem do ponto de vista da força física e das diferenças sexuais, tentando justificar cientificamente a inferioridade intelectual feminina pela fisiologia do seu corpo;
A visão cultural, definindo características e hábitos, costumes e valores próprios das mulheres e dos homens, característicos do modelo sexual patriarcal introduzido em nosso país desde a sua colonização e até hoje persistente em nossa sociedade. A construção dos valores desse modelo ocorre desde a infância, a partir do que está socialmente estabelecido como papel de homem e de mulher. Nesse processo, as crianças aprendem o “mundo” e constroem sua identidade sexual e de gênero. Ser macho ou fêmea é um dado biológico, mas ser homem ou mulher implica ser masculino ou feminino.Os gêneros aparecem como opostos e complementares, porém hierárquicos, o homem dominador e a mulher dominada.
Ser mulher e, portanto, feminina significa ser dona-de-casa passiva, maternal, afetiva e detalhista; ser homem significa ser forte, profissional, agressivo, racional e objetivo. Isso está tão enraizado na cultura e tão introjetado por cada pessoa que aparece como parte da “natureza humana”. Tornando qualquer comportamento sexual diferente desse padrão uma anormalidade. Se seguem esse padrão de submissão dos seus desejos, da não expressão da sua sexualidade e vontade, se servem ao papel de mães abnegadas, voltando todos seu esforço para o bem-estar da família são consideradas virtuosas. Se não atendem a esse padrão, se apresentam “características inerentes aos homens”, ou expressam suas vontades e desejos sexuais são classificadas como profanas. Os homens, dentro desse modelo, em geral vivenciam um grande medo da impotência e, como estão em uma posição de poder a zelar, estão mais propensos e viverem sua sexualidade de acordo com as atribuições do gênero masculino. Se romperem essa norma dominante, se expressarem seus desejos de forma diferentes são estigmatizados e rotulados como “pouco machos”.
Com desenvolvimento do capitalismo, esse modelo patriarcal vem sofrendo modificações, principalmente nas últimas décadas.A chamada segunda onda do feminismo surgida nos anos 60 atuou num ambiente de forte contestação ao sistema capitalista e aos valores tradicionais propiciando a abertura para novas formas de organização. O feminismo mostrou que o pessoal também é político, questionando assim um dos pilares fundamentais da opressão das mulheres no capitalismo, que é a separação da vida entre uma esfera pública e uma esfera privada (família).O feminismo colocou a importância de separar maternidade de sexualidade e defendeu o direito das mulheres de expressar seu desejo sexual.Construiu formas coletivas de expressão das mulheres e para afirmação de seu desejo sexual. Colocou a questão da autonomia e do seu poder de decidir e escolher.Questionou a opressão, a imposição e o castigo.
São inegáveis a importância e contribuição desses movimentos para a libertação sexual das mulheres e construção de novos valores sexuais. Mas também devemos ter clareza de que se por um lado, avançamos denunciando um modelo sexual opressor, discriminatório e desigual, conseguindo várias conquistas, por outro, algumas das lutas defendidas pelo movimento feminista, como acesso ao trabalho foram possíveis de serem alcançadas, não somente pela luta social que esses movimentos feministas vieram desempenhando ao longo desses anos, mas também e principalmente porque, naquele momento o sistema capitalista estava em crescimento e necessitava de mais mão-de-obra além da proporcionada pelos homens, e com custos mais reduzidos que os salários pagos para os homens. Proporcionando as mulheres o acesso ao trabalho, mas em condições ainda de inferioridade, além de proporcionar a essas o surgimento de uma “dupla jornada de trabalho”, o emprego externo e a continuidade do trabalho de casa, historicamente realizado por elas.
Outra situação que nos deparamos atualmente, com o avanço do capitalismo e seus reflexos nas relações de gênero é o desenvolvimento de relações sexuais baseadas no consumo e mercantilização. Por estarmos vivendo em um momento do desenvolvimento do capitalismo em que as relações humanas se dão através do consumo, compra e venda de mercadorias, em que as pessoas são valorizadas pelo que tem e pelo que consomem, acabamos transpondo essa idéia para as relações de gênero também. Observamos, principalmente nas gerações mais jovens, a formação de relações alicerçadas na idéia do consumo do outro, da ampliação das relações por prazer, por quantidade, da preocupação excessiva com a aparência corporal, da necessidade da beleza física para realização dos seus desejos e dos desejos do outro(a) segundo um padrão de beleza, propagandeado principalmente pelos meios de comunicação de massa , haja vista a grande ampliação do número de academias e do aumento exorbitante no número de cirurgias plásticas realizadas nos últimos anos.
Essa mercantilização transmite a falta idéia de que vivemos em uma situação de igualdade entre gêneros. Que ao mesmo tempo em que reduzem a distância entre a virtuosidade e a profanação das mulheres outrora tão evidentes nas relações patriarcais de gênero, propiciam o aparecimento de outras práticas, ainda baseadas na exploração e discriminação sexual. Se por um lado as mulheres puderam experimentar uma maior autonomia para o exercício da sexualidade, através das mudanças políticas e econômicas, como acesso ao trabalho, a educação, aos métodos anticoncepcionais, de outro surgiram novos perigos com a redução da distância entre virtuosidade-profanação, aumentando também a sua vulnerabilidade, crescendo o desrespeito, a violência e a agressividade sobre elas.
É necessário que entendamos que esses valores atualmente propagandeados e reproduzidos nas relações de gênero fazem parte da construção da ideologia dominante, com velhos traços do modelo patriarcal e com novos valores construídos a partir da necessidade do capitalismo, na consciência de ambos os sexos. Ou seja, gênero feminino e gênero masculino são responsáveis igualmente pela manutenção e reprodução desses valores. Devendo-se, portanto partir de ambos os gêneros, a necessidade, numa perspectiva de discussão classista, contra a ideologia dominante, a desconstrução desses valores consumistas, individualistas, discriminatórios e exploratórios, e a construção de novos valores, calcados na igualdade, respeito, e companheirismo entre sexos, sabendo o que nos diferencia e o que nos iguala, enquanto gênero feminino e gênero masculino, promovendo dessa forma um salto qualitativo na construção de verdadeiras relações de gênero livres de preconceitos, tabus, medos, exploração e discriminação sexual.

Bibliografia:
FARIA, Nalu (Org). Sexualidade e Gênero: uma abordagem feminista. São Paulo: SOF,1998.
Texto: Gênero e Classe; Sandra Marli da Rocha Rodrigues. MMC/PR.


Reflexões a respeito de Gênero e Sexualidade na FEAB

O surgimento da bandeira “Gênero e Sexualidade” entre as demais bandeiras de luta da FEAB reflete um amadurecimento político interessante entre os militantes e o Movimento Estudantil da Agronomia. Durante o primeiro ano de sua existência, já experimentamos alguns debates qualificados nos fóruns da FEAB, a discussão, diferentemente de outros setores, na FEAB surge com uma proposta de avanço à discussão (e prática!) sobre as relações de Gênero e Sexualidade, e tem um diferencial, o de não surgir a partir de uma demanda exclusivamente feminina, pelo contrário, ser suscitado e construído por homens e mulheres dentro da Federação.
Nós, mulheres da FEAB também entendemos a Plenária de Mulheres, que acontecerá durante o 49o CONEA (em Cuiabá), como um avanço para a Federação, visto que a Plenária não surge e nem é construída com um objetivo de sectarização do ME da Agronomia, pelo contrário, surge com o objetivo de levantar e aprofundar elementos (a partir da ótica feminina) que possam ser integrados ao debate amplo, entre companheiros e companheiras que se propõem a construir uma nova sociedade, calcada em novos valores.
Não nos pretendemos como um Movimento Femista, mas Feminista, que lute pelo reconhecimento dos direitos das mulheres e valorização do nosso papel, que de forma alguma deve ser construído com base na utilização de argumentos e práticas divisionistas e compensatórias. Divisionistas em relação ao debate, como avançar na discussão sem que os companheiros possam ter a possibilidade de participar e construir conosco as relações de gênero no Movimento Estudantil. Compensatórias no que diz respeito aos ganhos que podem surgir a partir deste debate. Devemos lutar por novas práticas, baseadas em novos valores, buscando a igualdade de direitos e reconhecimento de papéis e potenciais, e não simplesmente compensar a contribuição das mulheres ao ME com “cotas” em espaços, mesas e coordenações. O que devemos sim é lutar e priorizar pela formação de companheiras que tenham um debate qualificado, permitir que as mesmas tenham a possibilidade de contribuir em suas escolas e na FEAB e ME como um todo.
Partindo de uma análise histórica breve do Movimento Estudantil e as mulheres na FEAB percebemos dentro de nossas escolas o papel relevante das mulheres na construção do ME dentro de suas escolas. Mais uma vez, não se busca aqui uma simples quantificação da presença feminina na militância, mas sim levantar aspectos qualitativos desta presença. Construímos, ao longo dos anos, líderes estudantis por diversas escolas do Brasil. Depois da gestão de Pelotas, 2001/2002, onde não houve presença feminina na coordenação nacional, tivemos a Gestão de Curitiba, 2002/2003 com três mulheres, Vitória da Conquista, 2003/2004 com duas mulheres, mesmo ano em que a Coordenação Regional II (PR e SC), de Florianópolis é dirigida em sua maioria quase absoluta por mulheres. No ano de 2004, na escola de Curitiba, também se elege a primeira Coordenadora Geral do CAALV (UFPR) militante da FEAB, segunda da historia deste CA, depois de mais de quatro décadas de hegemonia masculina neste cargo. As coordenações nacionais de 2004/2005 e 2005/2006 (Santa Maria e Lavras respectivamente) trazem em sua composição uma companheira cada, não menos qualificadas e importantes para o processo de construção histórica da FEAB. Vale ressaltar também que no ano de 2005, pela primeira vez na história das Coordenações (da FEAB) na CONCLAEA (1998/1999 Geral; 2001/2002 Geral; 2005/2006 Sul) uma mulher contribui para a construção da Confederação. Esses exemplos são apenas alguns poucos dos que podemos resgatar na historia do Movimento Estudantil da Agronomia de contribuição de nossas mulheres militantes. Isso, sem levar em consideração as inúmeras companheiras que constroem em suas escolas e núcleos de base nossa política.
É peculiar ainda, que essa discussão e ascensão da discussão em torno das relações de gênero surja desta maneira dentro do movimento estudantil de um curso historicamente hegemonizado por homens e, da mesma maneira, historicamente machista e preconceituoso.
A propósito, a discussão a respeito de machismo e preconceito deve ser avaliada e discutida não apenas pelos homens, senão pelas mulheres, que devem ter a percepção de até que ponto contribuem com esta situação de submissão e discriminação. Sim, nós mulheres também temos nossa parcela de culpa nesta situação e faz parte de nosso compromisso construir novas formas de relacionamento entre nós e nossos companheiros.
A FEAB tem grandes chances de contribuir com o Movimento Estudantil a partir de uma ótica diferencial e qualificada a respeito das relações de gênero e de sexualidade, desde que se mantenha no caminho que vem seguindo, construindo o debate fraterno, juntando companheiros e companheiras, superando tabus, chavões e práticas machistas, desvios femistas e valores medíocres da sociedade burguesa.
Pelo Socialismo, a construção de novos valores é fundamental!


Contribuição do Núcleo de Trabalho Permanente de Juventude Cultura e Valores - NTP FEAB
UFPR - Curitiba - PR (2007)

Bandeira - juventude, cultura e valores

Juventude e cultura neoliberal


Veja neste artigo de Frei Betto como a cultura neoliberal atinge nossa juventude.A cultura neoliberal teme o idealismo dos jovens. Todos os grandes revolucionários da história tinham menos de 30 anos de idade ao ousarem consagrar suas vidas a transformar sonhos em realidade. São três os recursos utilizados pelo neoliberalismo para neutralizar as motivações utópicas da juventude. Primeiro, a desistorização do tempo. Extirpar o caráter histórico do tempo, herdado dos hebreus e tão presente na mensagem de três judeus paradigmáticos à nossa cultura: Jesus, Marx e Freud. Sem o varal da história, o tempo transforma-se num movimento cíclico. A historicidade cede lugar à simultaneidade. O compromisso ao ficar. O projeto ao prazer imediato. Assim, perde-se a dimensão biográfica da vida, agora reduzida à esfera biológica. O antídoto para este atentado à cultura é a participação política: no grêmio ou no diretório estudantil; nos movimentos sociais ou partidários; na luta por direitos humanos ou pela defesa do meio ambiente. Toda escola deveria ser um centro de formação política, sem partidarismo, mas tendo clareza de formar cidadãos e não consumidores. O segundo recurso neoliberal é a redução da cultura ao mero entretenimento. Nada de programas televisivos que despertem a consciência ou imprimam densidade ao espírito. Valem o apelo sensitivo, o jogo de imagens, o voyeurismo, a pornografia e a violência. Nada de fazer pensar e, muito menos, ter senso crítico. Neste caso, o antídoto é a própria cultura. Acostumar crianças a lerem livros e jovens a debaterem temas da conjuntura nacional e internacional. Educar o olhar em cineclubes e sessões de vídeos, em que filmes, capítulos de novelas e clipes publicitários são analisados criticamente. O terceiro recurso neoliberal é o consumo como fonte de valor humano. Em si, a pessoa nada vale. Mas revestida de uma mercadoria valiosa, como carro importado, mansão e grifes, passa a ter valor. Ou seja, é a mercadoria que imprime valor às pessoas e não o contrário. Neste caso, o antídoto é a espiritualidade. Quem abre-se ao transcendente faz a experiência de Deus, entusiasma-se no serviço ao próximo, já não busca fora de si a felicidade saboreada em seu espírito. Prefere a solidariedade à competitividade. Vive o amor, não como dever, mas como o prazer de ser feliz por fazer os outros felizes.

Fonte: Ação Cidadania
Frei BettoTeólogo, autor juntamente com Paulo Freire do livro "Uma escola chamada vida".

Bandeira - Formação Profissional

A FORMAÇÃO DO ENGENHEIRO-AGRONOMO EM QUESTÃO

Valdo José Cavalet*

O avanço da ciência e da tecnologia na atualidade tem sido cantado em verso e prosa. Os defensores ferrenhos do atual paradigma tecnológico, fruto do modo de produção capitalista, apontam nesse paradigma a solução para os problemas da humanidade.
Mas qualquer análise mais crítica desse modelo, em particular no setor agrário, aponta num sentido contrário ao dos ufanistas: a concentração da riqueza acentuou-se muito, a destruição dos recursos naturais avançou num ritmo impressionante e o pior dos sintomas de uma sociedade, a fome, ganhou ares de tragédia social.
Paralelamente a esse quadro, as escolas de nível superior da área de ciências agrárias continuaram a se multiplicar em todo o Brasil e as universidades formaram milhares de novos profissionais, cuja área de conhecimento estudada lhes garantiu atribuições legais para atuarem no mercado de trabalho ligado ao complexo agroindustrial.
Neste texto pretendo aprofundar a análise da contradição: avanço tecnológico, aumento do número de profissionais atuando na área e aumento da produção agrícola e o aumento de pobreza, a destruição dos recursos naturais e a expulsão do homem do campo.
Na busca de um embasamento teórico procedo à leitura de uma série de autores relacionados nas referências bibliográficas deste trabalho, que possuem pesquisa e produção científica no tema "Educação e Trabalho".
Após essas leituras procuro identificar as fases históricas do avanço tecnológico na agricultura. Posteriormente analiso o modelo de formação adotado pela Agronomia no Brasil. Por último, procuro encaminhar algumas conclusões que mais são interrogações e que me remetem obrigatoriamente a novas e futuras reflexões.
O AVANÇO TECNOLÓGICO NA AGRICULTURA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
A agricultura, atividade que visa domesticar, criar, reproduzir e cultivar animais e plantas através do trabalho3 do homem, tem seu início há aproximadamente dez mil anos. Quando o homem deixa o modo de vida nómade e fixa-se em determinada região, os alimentos ali produzidos pela natureza passam a escassear e há a necessidade então de domesticar plantas e animais comestíveis para viabilizar a multiplicação dos mesmos.
Durante milénios, o homem acumulou conhecimentos sobre como produzir o seu sustento. Eram conhecimentos empíricos adequados à reprodução ecológica. Ou, dito de outra forma, as formas de produção eram através de "técnicas" que causavam baixo impacto sobre o ecossistema e permitiam a reprodução ecológica a curto e médio prazo.
Era o homem adaptando a natureza a si, através do seu trabalho, baseado em um conhecimento que foi fruto de suas experiências acumuladas historicamente. E para continuar existindo precisava continuar produzindo a própria existência através do seu trabalho.
Os homens produziam a sua existência lidando com a natureza, se relacionando uns com os outros, e assim se educavam e educavam as novas gerações.
O uso de plantas leguminosas, fertilizantes orgânicos, pousio da terra, culturas de cobertura, rotação de culturas (animal e vegetal), tração animal, dentre outros, permitiram a preservação das áreas de produçào4 e a sustentação do homem numa sociedade agrária através dos milênios. Essas técnicas são utilizadas até os dias de hoje e não demandam gastos financeiros, pois apenas dependem do conhecimento do agricultor para serem adotadas na produção agrícola.
Com a Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX foi desenvolvida uma série de tecnologias baseadas na produção maquinizada.
Na agricultura os primeiros avanços são na área de fertilizantes (ROMEIRO, 1987) e, logo após, na mecanização. Nasce a indústria de fertilizantes químicos, e a propaganda induz a necessidade de uso dos novos produtos. Vale aqui ressaltar o papel da propaganda na ampliação das necessidades existentes numa determinada sociedade, no modo de produção capitalista (FERRETTI, 1992).
A indústria de fertilizantes cresceu de forma assombrosa e, aos poucos, os agricultores foram deixando para trás as milenares formas de manter a fertilidade do solo, substituindo-as pêlos fertilizantes químicos.
Com o avanço tecnológico da indústria de motores e máquinas, a mecanização agrícola possibilitou a exploração de grandes áreas de terras.
Após a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu-se também com muita rapidez a indústria de insumos agrícolas baseada na química fina. Os agrotóxicos5 - herbicidas, fungicidas e inseticidas - passaram a dominar o cenário agrícola.
No final da década de cinquenta, com a introdução de cultivares modernos de alta produtividade, das espécies vegetais de maior importância económica, teve início a chamada "Revolução Verde".
sim estava completo, no início dos anos sessenta, o chamado pacote tecnológico7,que dominou a agricultura nas últimas três décadas.
Na atualidade estamos passando da sociedade industrial (baseada na produção maquinizada) para a sociedade tecnizada (baseada na microeletrônica, microbiologia e em novas fontes de energia)(FRIGOTTO, 1991; MACHADO, 1991). As novas tecnologias sedistinguem pela aplicação universal, atingindo todos os setores da vida social, constituindo-se em fator chave e propulsor de outras inovações.

AS CONSEQUÊNCIAS DO MODELO ADOTADO

O modelo de produção adotado no Brasil a partir da década de sessenta, baseado no pacote tecnológico, ocasiona uma total desestruturação do regime de produção baseado na propriedade familiar.
A maior parte da população rural composta de pequenos e médios agricultores, e de trabalhadores rurais, nunca foi o real objeto das atenções do modelo implantado pelo Estado brasileiro após 1964 e, especialmente, a partir do final de 1967.
Seu principal objetivo no campo era integrar a agricultura à indústria, setor dominante no modelo, mediante a transformação do agricultor tradicional em empresário rural. A agricultura empresarial, altamente dependente de maquinário e insumos, serviria, como de fato serviu, para fortalecer o setor industrial.
Políticas de crédito e subsídios os mais diversos foram introduzidos para ampliar a capacidade de investimento de grande parte dos produtores, inclusive pequenos, dentro do propósito combinado de aumentar mercados para os produtos industrializados e aumentar aquantidade de matérias-primas para a indústria e os produtos de exportação. Este esforço para modernizar à agricultura e integrá-la a indústria foi particularmente bem sucedido no sul do País, onde havia condições de solo e clima para a expansão de culturas que, além depraticamente 100% mecanizáveis, aliavam-se à qualidade de agir favoravelmente na balança de pagamentos do país: eram elas a soja, o trigo e, em segundo plano, as demais culturas de inverno, como aveia, cevada e centeio.
No Paraná, a década de 70 assistiu a uma rápida expansão da soja, que, substituindo os cafezais e outras culturas, passou a ocupar de cerca de 395 mil ha plantados em 1970 a 2.250.000 ha em 1980. numa variação de 569%.
A expansão das culturas de exportação representou expressivo aumento no número de máquinas e insumos agrícolas consumidos. O número de tratores, por exemplo, deu um salto de 328% durante a década, passando a densidade de área por unidades de trator de 183 ha/trator em 1970 para 64 ha/trator em 1980.
Já no decorrer da primeira metade dos anos 70 os efeitos socialmente negativos desta política se faziam sentir.
Para os pequenos produtores que tiveram acesso ao crédito e chegaram a incorporar tecnologia moderna, a elevação da produtividade dela resultante foi insuficiente para compensar seus novos custos de produção, diante de um sistema de comercialização desigual e deficitário que convivia com o controle dos preços agrícolas por parte do Governo e com o endividamento crónico a que os mecanismos de créditoconduziam.
Em vez de levar a grande massa de pequenos produtores a uma crescente capitalização, tais mecanismos sujeitaram-na a uma subordinação mais direta ao grande capital, seja às grandes companhias produtoras de insumos e máquinas, seja às agroindústrias. seja aos bancos privados e estatais. O progressivo empobrecimento resultava, no limite, na perda da terra.
A parcela de pequenos produtores que não tiveram acesso ou recusaram o crédito oficial manteve seus padrões tradicionais de baixa produtividade. Somada à pouca terra de que dispunham e às condições de comercialização existentes, essa limitação resultou em renda insuficiente para cobrir até mesmo as necessidades mínimas de consumo familiar.
Por outro lado, a política de crédito, ao valorizar a terra, constituiu-se em fator de estímulo à venda das áreas dos produtores empobrecidos, que passaram a aumentar o número de migrantes para as cidades e para fronteiras agrícolas distantes
Também as formas de trabalho associado, como a parceria e o arrendamento, foram particularmente afetadas pelo avanço das culturas de exportação e pela mecanização crescente da agricultura. A grande propriedade deixou de interessar a manutenção de reservas permanentes de mão-de-obra, que implicavam parcelamento da terra e divisão de parte da produção, tornando oneroso o vinculo com parceiros e arrendatários. O mesmo ocorreu com os trabalhadores permanentes substituídos pelo trabalho temporário dos bóia-frias nas fases não-mecanizáveis do ciclo produtivo.
Em consequência, no Estado do Paraná, o chamado celeiro agrícola do País, registrou-se o desaparecimento de 24,2% dos pequenos estabelecimentos (menos de 20 ha) durante a década de 70. Registrou-se concomitantemente um processo de concentração fundiária em que a área na posse dos pequenos decresceu em 22.6%, enquanto a do estrato de estabelecimento com acima de 500 ha aumentou em 43,8%. Verificou-se um acelerado êxodo rural, com a perda de mais de l .250.000 habitantes do meio rural em dez anos.
A maioria da população rural saiu perdendo. Pequenos proprietários e seus familiares se proletarizaram. Produtores associados, privados dos meios de subsistência imediatos, transformaram-se em bóia-frias ou engrossaram o êxodo para as cidades. Pequenos produtores que resistiram ao vendaval ficaram submetidos aos duros termos da vinculação ao grande capital.
O programa de modernização, que se sustentava na política de crédito subsidiado, conseguiu atrelar as necessidades da agricultura à indústria de equipamentos e insumos agrícolas e, após fazê-lo. tem início o processo de retirada das vantagens inicialmente oferecidas em termos de crédito.

A FORMAÇÃO DO ENGENHEIRO-AGRONOMO

O primeiro curso de agronomia do Brasil data de 1879 e foi fundado em São Bento das Lages, interior da Bahia. Esse curso pertence hoje à Universidade Federal da Bahia e está sediado em Cruz das Almas-BA.
Na época da fundação do primeiro curso vivia-se no Brasil a fase final da escravidão. A oligarquia rural via ameaçada a produção de suas fazendas, visto que as primeiras culturas da época, cana-de-açúcar e café, utilizavam como força de trabalho a mão-de-obra escrava.
Foi nesse contexto de dificuldade de mão-de-obra, devido ao fim do regime de escravidão, que começaram a ser introduzidas as novas tecnologias desenvolvidas na revolução industrial (máquinas e equipamentos). O novo ciclo tecnológico e as dificuldades operacionais do modelo de desenvolvimento da época para o setor rural exigiram umprofissional adequado às condições. Surge a Agronomia no Brasil.
Na sequência, com o avanço da ciência no campo da química, surge a indústria de fertilizantes.
Assim, a agronomia, no seu primeiro meio século, foi um cursos que formou profissionais com o papel de incrementar a produtividade dos grandes latifúndios familiares, através do manejo das culturas extensivas da época, valendo-se da tecnologia química (fertilizante) e da tecnologia mecânica (máquinas e implementos). Esse paradigma tecnológico permaneceu até o final da década de cinquenta.
No final da década de cinquenta, início da década de sessenta, com o avanço na química fina (agrotóxicos) e na genética (sementes,mudas e matrizes), teve início a chamada "Revolução Verde".
Estava constituída a base tecnológica de um novo ciclo de desenvolvimento agrícola. A genética, a química e a mecânica constituíam-se na essência das tecnologias vendáveis ao setor rural. A indústria multinacional era e foi nas últimas três décadas a detentora da produção dessas novas tecnologias.
E importante ter em conta que as atividades de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias sempre foram desenvolvidas nas matrizes das empresas multinacionais, concentrando-se lá os recursos materiais, técnicos e financeiros. Às filiais, nos países subdesenvolvidos, como o caso do Brasil, coube somente fazer a adaptação dos produtos e processos às condições locais (MACHADO, 1994).
O Brasil, como foi visto anteriormente, priorizou um modelo de desenvolvimento altamente dependente de capital e de tecnologia de ponta, sendo a produção prioritariamente destinada à exportação. Isso foi feito em detrimento da produção de alimentos para o mercado interno. Foi privilegiada a propriedade empresarial em detrimento da propriedade familiar, a tecnologia multinacional em detrimento de uma tecnologia compatível com a nossa realidade, o uso intensivo e irracional dos recursos naturais em detrimento de um manejo ecológico desses recursos. A prioridade, enfim, foi o crescimento económico em detrimento do desenvolvimento social.
Essa inter-relação campo-indústria forma o atual complexo agroindustrial. Seus defensores gostam de chamá-lo de "agribusiness". Nele o homem do campo, principalmente a propriedade familiar, não tem vez.
2. O modelo de ensino adequado à formação de profissionais habilitados ao manuseio de tecnologias prontas.
O modelo de ensino adotado tinha como objetivo central habilitar os futuros profissionais a manusearem o conjunto de tecnologias desenvolvidas nas matrizes multinacionais. Os conteúdos do currículo não davam quase nenhuma ênfase aos conhecimentos relativos às ciências humanas, sociais e do ambiente. Além disso o ciclo básico da graduação, que poderia possibilitar ao aluno, ao estudar a base científica, refletirsobre as contradições da tecnologia adotada, foi desarticulado e relegado a um segundo plano.
A tecnologia tem por objetivo fazer crescer o lucro. Como força do capital, a sua dimensão facilitadora da vida humana, libertadora do mundo da fadiga e da necessidade, se expressa pela exclusão da maior parte da humanidade dos seus usos benéficos(FRIGOTTO. 1991).
A agronomia, no modelo pedagógico adotado. inserida no contexto das relações sociais de produção, foi e ainda continua sendo alienada e aliada do capital, onde o agricultor e os recursos naturais são apenas "meio" para a obtenção de maiores lucros.
Acrescente-se ainda que a grande maioria dos professores são pós-graduados no exterior em áreas extremamente especializadas; há um isolamento dos cursos de agronomia em relação ao conjunto do saber universitário; e os cursos praticamente desconsideram a realidade económica, ecológica e social do meio agrário. Fica assim ainda mais evidente a razão pela qual a formação profissional ficou alienada e à mercê do modelo do desenvolvimento brasileiro.
Foi somente ao final dos anos 70 e começo dos anos 80, duas décadas após o início do novo paradigma agrícola, que começou uma contestação ao modelo de formação profissional.
Foram os profissionais da agronomia através de suas representações lideradas péla Federação das Associações de Engenheiros - Agrônomos – FAEAB, e os estudantes de agronomia, através da Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil - FEAB, quecomandaram uma luta de amplitude nacional para alterar o ensino de Agronomia no País. As direções das escolas e a maioria dos professores, quando não se opuseram, permaneceram omissas à iniciativa destas categorias.
Após seis anos, numa conquista inédita, foi aprovado em 1984 o novo currículo mínimo da agronomia. Inédita porque, em oposição à proposta oficial do Conselho Federal de Educação - CFE e também porque é oriundo de movimentos externos às escolas.
Dentre as muitas conquistas, foram introduzidos conteúdos de ciências humanas e sociais e ciências do ambiente que possibilitaram a discussão sobre um maior compromisso profissional diante da drástica realidade rural brasileira.
Passados dez anos daquela vitória, algumas das atuais 64 escolas de agronomia do Brasil ainda não implantaram o currículo mínimo, num flagrante desrespeito a legislação, que conta com a conivência do CFE. E a maioria das escolas que implantaram o novo currículo apenas o fizeram alterando a grade curricular, para atender à legislação. Os novosconteúdos ficaram isolados em uma ou duas disciplinas, sob o argumento de que as escolas não possuíam condições estruturais e de pessoal para uma reforma mais ampla.
As federações cometeram o erro de achar que, ao conseguirem que o CFE aprovasse a nova proposta de currículo, haviam encerrado as suas participações e que as mudanças nas escolas iriam acontecer naturalmente.
Só os movimentos sociais podem tornar as escolas mais democráticas e possibilitar mudanças. Na ausência de pressões externas por mudanças, elas tendem a preservar as relações existentes (CARNOY e LEVIN.1987).
Comênio, Lenin, Suchodoiski, Gramsci e tantos outros líderes e educadores de diferentes realidades históricas mais uma vez estavam com a razão: Não se fazem mudanças sem a participação do conjunto dos professores, e com as escolas isoladas das relações sociais de produção.
CONCLUSÃO

O agricultor foi despojado do seu conhecimento milenar. A ciência incorporada à produção agrícola é propriedade do capital. O agricultor, a partir das "novas tecnologias", limitou-se a aplicá-las, perdendo o seu saber histórico e ficando à mercê de novas "orientações técnicas''. Reforçou-se a divisão entre a concepção e a execução e o agricultor passou a ser facilmente substituído. Assim, dentre outras consequências, o avanço da ciência e da tecnologia no campo contribuiu para a concentração da terra. O capital livre do saber histórico do agricultor pode fazer facilmente a passagem da produção baseada na propriedade familiar para a produção empresarial.
A agricultura deixou de ser um modo de vida e passou a ser unicamente um meio de vida.
Mas nunca na história da agricultura houve tantos avanços tecnológicos e tantos profissionais formados na área como nesses últimos anos, e, no entanto, contraditoriamente, nunca houve tantos problemas ecológicos e sociais como agora.
Não é possível continuar fazendo a apologia da ciência moderna achando que o desenvolvimento científico e tecnológico por si só pode libertar a "humanidade" da miséria. Fica cada vez mais evidente que se deve buscar uma análise histórica - concreta da ciência e da técnica como produtos de relações sociais determinadas.
A pergunta fundamental é como: nesse contexto citado, tornar a escola um instrumento de geração e difusão de conhecimento que beneficie o conjunto da sociedade?
Para FRIGOTTO (1989,1991, 1992) e MACHADO (1991, 1992, 1993, 1994) a escola deve ir na direção de uma formação que tenha a dimensão científico – técnica, social, política, cultural e estética da formação humana, ou, em outras palavras, na direção de um saber politécnico que tenha como princípio educativo o trabalho.
A agronomia, enquanto educação formal, de nível superior, profissionalizante, está num caminho contrário ao proposto: sua concepção de homem é unilateral; apregoa a divisão entre o trabalho manual e o intelectual; o trabalho é posto como alienação da vida e a concepção de ensino e educação se assenta sob a ótica do treinamento e adestramento para o mercado de trabalho.
Assim, mesmo aquele perfil descrito a seguir, pela FAEAB e FEAB, está muito longe de ser possibilitado pelas escolas de agronomia.
De acordo com as deliberações de seis Congressos Brasileiros de Agronomia, realizados no período de 1979 a 1989, o perfil do engenheiro-agrônomo para atuar diante da realidade brasileira é de um profissional de sólida cultura, de alto preparo humanístíco, de elevado conteúdo político e de formação curricular generalista. A formação desse engenheiro - agrônomo deve proporcionar agudo senso crítico, discernimento na vida profissional, criatividade, inovação, capacidade de geração de tecnologia e condições para implementar a transição do atual modelo para uma agricultura branda, integrada, permanente e em harmonia com a natureza e o homem.
A FAEAB conceitua a agronomia como sendo: "A ciência que estuda os vegetais, os animais e o meio ambiente , onde se desenvolvem sua integração, proteção e aproveitamento sustentado, os instrumentos e instalações para a produção sob a direção do homem, com a finalidade de proporcionarem à humanidade alimentos de alta qualidade biológica, matérias-primas, trabalhos, segurança, bens e utilidades com maior eficiência social, económica, técnica, ecológica e cultural".
A postura da escola diante das relações sociais de produção pode ser de doutrinar, ignorar ou desvelar a realidade. O normal é que as relações sociais decorrentes do modo de produção capitalista sejam reproduzidas pela escola, portanto as desigualdades sociais tendem a se agravar.
As escolas de agronomia no Brasil, com destaque nas últimas três décadas, tem doutrinado seus alunos a serem fiéis servidores do ingrato modelo económico aplicado no campo, com resultados catastróficos para a ecologia e a sociedade.
O desafio é construir uma proposta baseada num modelo pedagógico que possibilite a formação do que GRAMSCI sintetizou como sendo: a formação do técnico mais o político, (MANACORDA, 1990).

Bandeira - Universidade

A universidade operacional
MARILENA CHAUI
A Reforma do Estado brasileiro pretende modernizar e racionalizar as atividades estatais, redefinidas e distribuídas em setores, um dos quais é designado Setor dos Serviços Não-Exclusivos do Estado, isto é, aqueles que podem ser realizados por instituições não-estatais, na qualidade de prestadoras de serviços. O Estado pode prover tais serviços, mas não os executa diretamente nem executa uma política reguladora dessa prestação. Nesses serviços estão incluídas a educação, a saúde, a cultura e as utilidades públicas, entendidas como "organizações sociais" prestadoras de serviços que celebram "contratos de gestão" com o Estado. A Reforma tem um pressuposto ideológico básico: o mercado é portador de racionalidade sociopolítica e agente principal do bem-estar da República. Esse pressuposto leva a colocar direitos sociais (como a saúde, a educação e a cultura) no setor de serviços definidos pelo mercado. Dessa maneira, a Reforma encolhe o espaço público democrático dos direitos e amplia o espaço privado não só ali onde isso seria previsível -nas atividades ligadas à produção econômica-, mas também onde não é admissível -no campo dos direitos sociais conquistados. A posição da universidade no setor de prestação de serviços confere um sentido bastante determinado à idéia de autonomia universitária e introduz termos como "qualidade universitária", "avaliação universitária" e "flexibilização da universidade". De fato, a autonomia universitária se reduz à gestão de receitas e despesas, de acordo com o contrato de gestão pelo qual o Estado estabelece metas e indicadores de desempenho, que determinam a renovação ou não renovação do contrato. A autonomia significa, portanto, gerenciamento empresarial da instituição e prevê que, para cumprir as metas e alcançar os indicadores impostos pelo contrato de gestão, a universidade tem "autonomia" para "captar recursos" de outras fontes, fazendo parcerias com as empresas privadas. A "flexibilização" é o corolário da "autonomia". Na linguagem do Ministério da Educação, "flexibilizar" significa: 1) eliminar o regime único de trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva, substituindo-os por "contratos flexíveis", isto é, temporários e precários; 2) simplificar os processos de compras (as licitações), a gestão financeira e a prestação de contas (sobretudo para proteção das chamadas "outras fontes de financiamento", que não pretendem se ver publicamente expostas e controladas); 3) adaptar os currículos de graduação e pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes regiões do país, isto é, às demandas das empresas locais (aliás, é sistemática nos textos da Reforma referentes aos serviços a identificação entre "social" e "empresarial"); 4) separar docência e pesquisa, deixando a primeira na universidade e deslocando a segunda para centros autônomos. A "qualidade" é definida como competência e excelência, cujo critério é o "atendimento às necessidades de modernização da economia e desenvolvimento social"; e é medida pela produtividade, orientada por três critérios: quanto uma universidade produz, em quanto tempo produz e qual o custo do que produz. Em outras palavras, os critérios da produtividade são quantidade, tempo e custo, que definirão os contratos de gestão. Observa-se que a pergunta pela produtividade não indaga: o que se produz, como se produz, para que ou para quem se produz, mas opera uma inversão tipicamente ideológica da qualidade em quantidade. Observa-se também que a docência não entra na medida da produtividade e, portanto, não faz parte da qualidade universitária, o que, aliás, justifica a prática dos "contratos flexíveis". Ora, considerando-se que a proposta da Reforma separa a universidade e o centro de pesquisa, e considerando-se que a "produtividade" orienta o contrato de gestão, cabe indagar qual haverá de ser o critério dos contratos de gestão da universidade, uma vez que não há definição de critérios para "medir" a qualidade da docência. O léxico da Reforma é inseparável da definição da universidade como "organização social" e de sua inserção no setor de serviços não-exclusivos do Estado. Ora, desde seu surgimento (no século 13 europeu), a universidade sempre foi uma instituição social, isto é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber diante da religião e do Estado, portanto na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão. Por isso mesmo, a universidade européia tornou-se inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica. Com as lutas sociais e políticas dos últimos séculos, com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade tornou-se também uma instituição social inseparável da idéia de democracia e de democratização do saber: seja para realizar essa idéia, seja para opor-se a ela, a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como idéia reguladora, nem pôde furtar-se a responder, afirmativa ou negativamente, ao ideal socialista. Que significa, então, passar da condição de instituição social à de organização social?Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma outra prática social, qual seja, a de sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. É regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe. A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais. Como foi possível passar da idéia da universidade como instituição social à sua definição como organização prestadora de serviços?A forma atual do capitalismo se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares e programas particulares, competindo entre si. Sociedade e Natureza são reabsorvidas uma na outra e uma pela outra porque ambas deixaram de ser um princípio interno de estruturação e diferenciação das ações naturais e humanas para se tornarem, abstratamente, "meio ambiente"; e "meio ambiente" instável, fluido, permeado por um espaço e um tempo virtuais que nos afastam de qualquer densidade material; "meio ambiente" perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder. Por isso mesmo, a permanência de uma organização depende muito pouco de sua estrutura interna e muito mais de sua capacidade de adaptar-se celeremente a mudanças rápidas da superfície do "meio ambiente". Donde o interesse pela idéia de flexibilidade, que indica a capacidade adaptativa a mudanças contínuas e inesperadas. A organização pertence à ordem biológica da plasticidade do comportamento adaptativo. A passagem da universidade da condição de instituição à de organização insere-se nessa mudança geral da sociedade, sob os efeitos da nova forma do capital, e ocorreu em duas fases sucessivas, também acompanhando as sucessivas mudanças do capital. Numa primeira fase, tornou-se universidade funcional; na segunda, universidade operacional. A universidade funcional estava voltada para a formação rápida de profissionais requisitados como mão-de-obra altamente qualificada para o mercado de trabalho. Adaptando-se às exigências do mercado, a universidade alterou seus currículos, programas e atividades para garantir a inserção profissional dos estudantes no mercado de trabalho, separando cada vez mais docência e pesquisa. Enquanto a universidade clássica estava voltada para o conhecimento e a universidade funcional estava voltada diretamente para o mercado de trabalho, a nova universidade ou universidade operacional, por ser uma organização, está voltada para si mesma enquanto estrutura de gestão e de arbitragem de contratos. Regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível, a universidade operacional está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e, portanto, pela particularidade e instabilidade dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microrganizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual. A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nu: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. Virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age. Não surpreende, então, que esse operar co-opere para sua contínua desmoralização pública e degradação interna. Que se entende por docência e pesquisa, na universidade operacional, produtiva e flexível?A docência é entendida como transmissão rápida de conhecimentos, consignados em manuais de fácil leitura para os estudantes, de preferência, ricos em ilustrações e com duplicata em CDs. O recrutamento de professores é feito sem levar em consideração se dominam ou não o campo de conhecimentos de sua disciplina e as relações entre ela e outras afins -o professor é contratado ou por ser um pesquisador promissor que se dedica a algo muito especializado, ou porque, não tendo vocação para a pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por contratos de trabalho temporários e precários, ou melhor, "flexíveis". A docência é pensada como habilitação rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente num mercado de trabalho do qual serão expulsos em poucos anos, pois tornam-se, em pouco tempo, jovens obsoletos e descartáveis; ou como correia de transmissão entre pesquisadores e treino para novos pesquisadores. Transmissão e adestramento. Desapareceu, portanto, a marca essencial da docência: a formação. A desvalorização da docência teria significado a valorização excessiva da pesquisa? Ora, o que é a pesquisa na universidade operacional?À fragmentação econômica, social e política, imposta pela nova forma do capitalismo, corresponde uma ideologia autonomeada pós-moderna. Essa nomenclatura pretende marcar a ruptura com as idéias clássica e ilustradas, que fizeram a modernidade. Para essa ideologia, a razão, a verdade e a história são mitos totalitários; o espaço e o tempo são sucessão efêmera e volátil de imagens velozes e a compressão dos lugares e instantes na irrealidade virtual, que apaga todo contato com o espaço-tempo enquanto estrutura do mundo; a subjetividade não é a reflexão, mas a intimidade narcísica, e a objetividade não é o conhecimento do que é exterior e diverso do sujeito, e sim um conjunto de estratégias montadas sobre jogos de linguagem, que representam jogos de pensamento. A história do saber aparece como troca periódica de jogos de linguagem e de pensamento, isto é, como invenção e abandono de "paradigmas", sem que o conhecimento jamais toque a própria realidade. O que pode ser a pesquisa numa universidade operacional sob a ideologia pós-moderna? O que há de ser a pesquisa quando razão, verdade, história são tidas por mitos, espaço e tempo se tornaram a superfície achatada de sucessão de imagens, pensamento e linguagem se tornaram jogos, constructos contingentes cujo valor é apenas estratégico? Numa organização, uma "pesquisa" é uma estratégia de intervenção e de controle de meios ou instrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, uma "pesquisa" é um "survey" de problemas, dificuldades e obstáculos para a realização do objetivo, e um cálculo de meios para soluções parciais e locais para problemas e obstáculos locais. Pesquisa, ali, não é conhecimento de alguma coisa, mas posse de instrumentos para intervir e controlar alguma coisa. Por isso mesmo, numa organização não há tempo para a reflexão, a crítica, o exame de conhecimentos instituídos, sua mudança ou sua superação. Numa organização, a atividade cognitiva não tem como nem por que realizar-se. Em contrapartida, no jogo estratégico da competição no mercado, a organização se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades, obstáculos sempre novos, o que é feito pela fragmentação de antigos problemas em novíssimos microproblemas, sobre os quais o controle parece ser cada vez maior. A fragmentação, condição de sobrevida da organização, torna-se real e propõe a especialização como estratégia principal e entende por "pesquisa" a delimitação estratégica de um campo de intervenção e controle. É evidente que a avaliação desse trabalho só pode ser feita em termos compreensíveis para uma organização, isto é, em termos de custo-benefício, pautada pela idéia de produtividade, que avalia em quanto tempo, com que custo e quanto foi produzido. Em suma, se por pesquisa entendermos a investigação de algo que nos lança na interrogação, que nos pede reflexão, crítica, enfrentamento com o instituído, descoberta, invenção e criação; se por pesquisa entendermos o trabalho do pensamento e da linguagem para pensar e dizer o que ainda não foi pensado nem dito; se por pesquisa entendermos uma visão compreensiva de totalidades e sínteses abertas que suscitam a interrogação e a busca; se por pesquisa entendermos uma ação civilizatória contra a barbárie social e política, então, é evidente que não há pesquisa na universidade operacional. Essa universidade não forma e não cria pensamento, despoja a linguagem de sentido, densidade e mistério, destrói a curiosidade e a admiração que levam à descoberta do novo, anula toda pretensão de transformação histórica como ação consciente dos seres humanos em condições materialmente determinadas.

Bandeira - Universidade

Para entender a questão da formação profissional, a crise por que passa devido às demandas exigidas pelas transformações da dinâmica capitalista nessas últimas décadas, que determina uma nova relação capital/trabalho, é importante entender qual o papel da educação, e qual sua função na sociedade, nas diferentes concepções de grupos sociais de interesses distintos.
Hoje a universidade que tem o papel de diminuir a desigualdade social não vem cumprindo esta tarefa e com isso proporcionando uma formação que não atende a demanda da sociedade; pois o atual sistema para manter sua hegemonia de dominação ideológica usa da universidade como ferramenta para que os profissionais sejam adestrados para atuar nas diversas áreas do setor produtivo; porém sem ter a capacidade de questionar e propor mudanças que venham a diminuir essa desigualdade e assim proporcionar uma melhora na qualidade de vida da população mais excluída pelo atual sistema capitalista.
Essa formação que nos é imposta e que claramente vem a atender a demanda do mercado coloca os profissionais recém formados nas mãos das multinacionais, transformando-os em meras marionetes, que proporcionam cada vez mais lucro a essas empresas, sendo que essa riqueza produzida se concentra nas mãos de poucos e sempre é desviada para fora dos pais.
Uma forma de amarrar e manter tal submissividade, é não proporcionando ao estudante uma formação que o faça pensar criticamente, pois o conhecimento passado pelos professores é absorvido como regra e reproduzido em toda a vida profissional, gerando assim profissionais acríticos e alheios a transformação social. Tal inexistência de uma relação entre instituição, indivíduo e sociedade, vem com o intuito de potencializar o individualismo e a corrida incessante pelo status social e econômico.
Com a revolução verde constituiu-se a base tecnológica de um novo ciclo de (des)envolvimento agrícola; as máquinas, a industria química e mais tarde a genética constituíram-se como tecnologias vendáveis ao meio rural e por isso usadas pelas multinacionais como instrumento de dominação. Esse modelo imposto privilegiou o crescimento econômico, mas deixou de lado o envolvimento da sociedade neste crescimento; nascendo então o agrobusines que logo passou a chamar-se de agronegócio, que culminou diretamente para um significativo aumento no número de escolas de agronomia que aplicavam um modelo de ensino que forma profissionais incompletos, inseguros e incapazes de organizar comunidades ou sistema de produção, sendo estes profissionais habilitados somente ao manuseio de tecnologias prontas, comprovando assim que a formação profissional ficou alienada a mercê do modelo de (dês)envolvimento brasileiro. Assim podemos notadamente comprovar que o engenheiro agrônomo que se “forma” na universidade, e começa a atuar na sociedade, está longe de ter um perfil ideal que contemple a demanda da mesma. Para isso seria necessário um profissional de sólida cultura, alto preparo humanístico, elevado conteúdo político e de formação curricular generalista; proporcionando assim a esse profissional um agudo senso critico, criatividade, inovação, capacidade de geração de tecnologia e condições para implementar a transição do atual modelo para uma agricultura mais branda, integrada, permanente e em harmonia com o homem e a natureza.

Bandeira - Ciência e Tecnologia

Os debates sobre ciência e tecnologia tiveram início em 1981, onde se realizou o I Congresso Brasileiro de Iniciação Científica em Ciências Agrárias (I CBICCA).
Esse evento tinha como intenção discutir o papel da ciência e tecnologia que é produzida dentro das universidades. Fazendo uma análise crítica baseado nos princípios éticos e da construção de valores dentro dos pesquisadores que procuram alternativas para a problemática do nosso mundo, podemos dizer que o CBICCA em suas dezoito edições cumpre com seu papel.
Porém estava superado na construção metodológica que deixava limitado a discussão dentro da universidade e das ciências agrárias, com o intuito de fazer o debate com organizações populares e estudantis, surge o CEPCT (congresso estudantil e popular de ciência e tecnologia), que se realizou em Lavras (MG) em 2000. Esse evento não foi aceito pela Universidade Federal de Lavras, isso causou uma revolta dos participantes que resolveram ocupar o espaço através da força, mesmo tendo que enfrentar a PM do estado de Minas Gerais.
Hoje a FEAB vem dando continuidade ao CEPCT e em 1989 foram criados os NTP´s, sendo um deles o NTP de Ciência & Tecnologia. Também são feitas as discussões em espaços como o CONEA e EREA.

Bandeira - Agroecologia

Desde o ano de 1981 a Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB) promove discussões e organiza os grupos de agroecologia em torna desta bandeira de luta. Num primeiro momento a FEAB, junto a outras entidades organizou quatro Encontros Nacionais de Agricultura Alternativa (EBAA) na década de 80. Após a FEAB criou os Encontros Regionais de Agricultura Alternativa (ERAA) que tinha como um dos objetivos servir de preparação para os EBAA’s. Não houve mais seqüência dos EBAAs , porém era necessário de que acontecesse um evento nacional a fim de consolidar os avanços dos ERAAs , o que se viabilizou com a realização do Seminário Nacional de Agricultura Alternativa (1994).
Hoje a FEAB debate e coloca em prática seu acumulo, através do Núcleo de Trabalho Permanente de Agroecologia e também dos vários grupos de Agroecologia que compõe a federação, além dos espaços de discussão como os Encontros Regionais de Agroecologia e o Congresso Nacional dos Estudantes de Agronomia.
A partir dos vários espaços em que se avaliou o Modelo de Desenvolvimento Agrário e a formação dos(as) profissionais de Agronomia, surgiram varias iniciativas que ora contestavam este modelo, ora propunham outro modelo de desenvolvimento baseado na Agroecologia e na distribuição de renda.
A Agroecologia, de forma restrita poderia ser compreendida como a união da Ecologia com a Agricultura, como diria Altieri (1987), a teoria ecológica aplicada ao manejo de sistemas agrícolas. No entanto, compreendemos a agroecologia num sentido muito mais amplo, onde haja qualidade de vida para todos, relacionando-a com fatores socioeconômicos, políticos, culturais e ambientais, de todas as pessoas envolvidas.È necessária à mudança imediata deste Modelo de Desenvolvimento Agrário, construindo um novo paradigma, da qual agroecologia é um dos alicerces já comprovados.